13 - Steve Wynn

 

Tempos atrás - há cinco anos para ser exato - entrevistei Steve Wynn e assim comecei a fazer amizade com um dos mais respeitados artistas da cena independente norte-americana. Mas, passado tanto tempo, tantos e-mails e tantos papos, me lembrei que não tinha falado de verdade de sua banda, o Dream Syndicate. Por isso, pedi a Steve nova entrevista para abordamos esse grande grupo. Minha vontade de falar deles cresceu muito depois que ele me mandou dois discos do grupo em edição remasterizada e tal - Ghost Stories e Live at Raji's (lançado como The Complete Live at Raji's). Assim, mandei uma lista imensa de perguntas e Steve teve, novamente uma grande gentileza em responder todas. Vamos ao papo e uma pequena introdução do grupo...


Pergunta: - Como surgiu o grupo?
Steve Wynn:
- Eu conheci Kendra tocando em algumas bandas em Davis, California. Karl apareceu após eu colocar um anúncio procurando um baixista para uma banda de porão que eu tinha. Foi aí que Denis também surgiu e ele amou o som que faziamos, de tocarmos uma nota por hora. Simples assim.

Pergunta: - Existiu uma outra banda com o nome Dream Syndicate. Era o grupo de La Monte Young e de John Cale (futuro parceiro de Lou Reed no Velvet Underground), nos anos 60. Você pegaram o nome deles?
Steve Wynn:
- Não, o nome foi tirado de um disco de Tony Conrad chamado Outside the Dream Syndicate. Ele tinha sido membro do mesmo grupo de Young e Cale, mas não sabíamos disso nessa época.

capa do disco The Days Of Wine and RosesPergunta: - The Days Of Wine and Roses é um estupendo disco de estréia. Como foram as gravações para o disco?
Steve Wynn:
- Entramos em um estúdio de Hollywood às sete da noite de um domingo. Nós trazíamos um pouco de frango frito, algumas bebidas e começamos as gravações lá pela meia-noite. Acabamos tudo por volta das seis da manhã, foi algo bem maluco, certo? Levou mais uma noite para mixá-lo, trabalho que terminou às 8 da manhã. Depois disso, peguei meu carro e fui até a loja da Rhino Records, onde eu trabalhava. Eu estava terrivelmente excitado.

Pergunta: - Vocês foram influenciados por grandes bandas como 13th Floor Elevators, Velvet, Dylan, Stooges, Neil Young, mas citou que sua banda favorita era o Television. Poderia falar um pouco disso?
Steve Wynn:
- Amávamos um monte de bandas que não eram muito comentadas nos anos 80. Além dessas, adorávamos Creedence Clearwater Revival, Roxy Music, Quicksilver Messenger Service e grupos que estavam surgindo como The Fall e Orange Juice.

Pergunta: - A Califórnia teve uma grande cena no início dos anos 80 com o Rain Parade, Bangles, Three O' Clock. Como era a cena local?
Steve Wynn:
- Durante seis meses foi bem excitante, porque tocávamos juntos, assistíamos os shows dos outros e freqüentávamos festas, escrevíamos canções juntos e até saíamos. Mas, de repente, algumas bandas tiveram um sucesso muito grande e começaram a tocar pelo país todo, quase não nos encontrávamos e a cena morreu.

Pergunta: - Vocês foram o Paisley Underground. O que foi isso?
Steve Wynn:
- Foi um nome engraçado inventado (ele depois lamentou isso...) por Michael Quercio do Salvation Army. Significava dizer que todas as bandas de Los Angeles eram influenciados pelos grupos de garagem e também pelo psicodelismo dos anos 60. Sempre achamos que isso não era uma definição perfeita porque não nos vestíamos como os grupos dos anos 60 e também porque gostávamos de algumas bandas dos anos 70.

Pergunta: - Freqüentemente, o Dream é lembrando como um dos poucos grupos na América - ao lado de R.E.M., Hüsker Dü e Replacements - a fazerem um som voltado para a guitarra. Por que era tão difícil surgirem bandas assim?
Steve Wynn:
- Eu não sei, mas talvez por causa de todos os novos grupos que amavam os sintetizadores. Todos achavam que grupos como Human League, DAF, Heaven 17 e Flock of Seagulls eram revolucionários e os grupos que tocavam guitarras estavam por fora. Mas nós pensávamos diferente e graças a Deus outras pessoas também.

Pergunta: - Por que Karl Precoda e Kendra Smith saíram?
Steve Wynn:
- Kendra saiu porque ela começou a namorar David Roback e não queria mais excursionar. Mas ela já estava infeliz com as mudanças sonoras do grupo. Foi muito triste, mas respeitamos sua decisão. Karl e eu deixamos de ser amigos e por causa disso a banda parou até aparecer Paul B Cutler.

Paul e StevePergunta: - Com Paul B Cutler e Mark Walton o Dream ficou bem mais consistente, em minha opinião. Você concorda?
Steve Wynn:
- Sim, concordo. De fato, a banda estava mais consistente e também melhor em vários aspectos. A nossa primeira formação era fantástica quando estávamos em nossas melhores noites, mas não íamos bem quando os problemas apareciam. Com Cutler sempre fomos mais consistentes, mais incendiários.

Pergunta: - Voltando às influências: Television é sua banda favorita, não? E parece que ouvi dizer que Marquee Moon é seu disco predileto...
Steve Wynn:
- Eu te darei uma outra resposta qualquer dia, mas Marque Moon é um dos meus discos favoritos, de fato, porque a cada vez que o ouço percebo coisas novas.

capa do disco Live at Raji'sPergunta: - Live at Raji's é um impressionante registro ao vivo, gravado em dois canais e sem overdubs. O Dream era uma banda meio "perigosa" ao vivo, não? Vocês abusavam do volume...
Steve Wynn:
- É, colocávamos os amplificadores no talo...

Pergunta: - Você trabalhou com grandes produtores - Sandy Pearlman, Elliot Meltzer. O que aprendeu com eles?
Steve Wynn:
- Com Sandy eu aprendi que as músicas têm uma experiência sonora e uma outra visual. Com Elliot eu aprendi que devemos sempre dar o nosso melhor ou desistir. Ele nos ensinou que a música tem que ser real e excitante no momento em que ela está sendo feita no estúdio.

Pergunta: - Em 1985 você gravou The Lost Weekend como Danny and Dusty. O que foi isso?
Steve Wynn:
- A idéia original era fazer uma música para uma compilação que seria lançada pela namorada de Danny, mas nos divertimos tanto e ficou tão bom que acabamos lançando um disco só nosso. Pense em um bando de amigos fazendo música enquanto bebia cerveja num final de semana maluco, assim como sugere o título.

Pergunta: - Por que a banda acabou?
Steve Wynn:
- Após sete anos tocando e excursionando parecia que já tínhamos atingido nosso pico e a tendência era apenas nos repetirmos e decair. Como eu amava a banda demais e não queria que isso acontecesse, acabamos.

Pergunta: - Alguma chance de vocês voltarem?
Steve Wynn:
- Não sei dizer. Realmente não sei.

capa do novo disco de Steve, ...tick...tick...tickPergunta: - Você está orgulhoso do legado do Dream Syndicate?
Steve Wynn:
- Muito. A nossa música não soa datada e fizemos algo que veio de nossos corações e por isso continua sendo relevante. E estou muito feliz vendo gente descobrindo essas canções escritas há quase 25 anos.

Pergunta: - Obrigado Steve. Tem alguma mensagem final?
Steve Wynn:
- Ah, sim. Eu tenho outro discos também e o novo se chama ...tick...tick...tick. Ele será lançado esse mês. Obrigado pela entrevista.

Fiquem com a discografia do Dream Syndicate. Um abraço e até a próxima.

Discografia

The Dream Syndicate (EP, 1982)
The Days Of Wine and Roses (1982)
This Is Not The New Dream Syndicate Album... LIVE (1984)
Medicine Show (1984)
Out Of The Grey (1986)
Ghost Stories (1988)
It's Too Late To Stop Now (1989)
Live at Raji's (1989)
Tell Me When It's Over - The Best of The Dream Syndicate (1992)
3 1/2 The Lost Tapes: 1985-1988 (1993)
The Day Before Wine And Roses (EP ao vivo, 1994)