| Anos atrás
falei de Irish Tour e sempre senti vontade de contar um pouco
a história do jovem Rory Gallagher, desde os primeiros
passos, passando pelo Taste e até se tornar um dos grandes
nomes do rock dos anos 70. Essa coluna mostrará os primórdios
desse músico extremamente talentoso e que tanta falta faz
hoje.
A
música sempre esteve no sangue de Rory Gallagher, desde
muito cedo. Para esse irlandês, nascido no dia 2 de março
de 1948, em Ballyshannon, e que se mudou com a família
para Cork, dois anos depois, não havia outra saída
do que fazer da arte sua vida.
O sonho começou
a se realizar aos 9 anos quando ganhou seu primeiro violão
e começou a aprender sozinho os rudimentos do instrumento.
No ano seguinte, inicia
uma série de apresentações em concursos amadores,
vencendo um deles, aos 12 anos, em Cork, quando comprou sua primeira
guitarra elétrica.
Aos 13 anos entra em seu
primeiro grupo e, em 1963, aos 15 anos, compra a famosa Fender
Stratocaster sunburst 1961, que o acompanharia por toda a vida,
por 100 libras, uma pequena fortuna naqueles dias.
No
ano seguinte, integra os Fontana Show Band, que depois seria rebatizado
de The Impacts, com amigos da escola.
A banda consistia em Rory
Gallagher (guitarra solo); John Lehane (sax); Eamon O'Sullivan
(bateria); Declan O'Keeffe (guitarra-base); Oliver Tobin (baixo);
Bernard Tobin (trombone e sax).
E foi com o Impact, que
causa uma pequena confusão, onde dá sinais de seu
verdadeiro talento. A banda iria participar do programa Pickin'
The Pops, um programa da televisão irlandesa e Rory
deixou os demais integrantes furiosos ao tocar "Slow Down",
de Larry Williams, ao invés da combinada "Valley of
Tears", de Buddy Holly.
Rory
já usava cabelos compridos, tinha fama de rebelde e cativou
a platéia.
"Rory causou grande
impressão e surpreendeu todo mundo ao fazer algo completamente
diferente. Ele era único e mudou toda a cena de showband",
conta Larry Gogan, que era o DJ residente do local.
O Impact fez uma pequena
excursão pelo Reino Unido e até uma viagem pela
Alemanha - quase uma obrigação para as bandas britânicas
da época - onde se separaram.
Rory dificultava ao máximo
a vida dos companheiros. Na época, as bandas de showband
tocavam as músicas das paradas e tal obrigação
irritava Rory, que queria tocar o que apreciava.
Apesar de ter um gênio
forte, Rory sempre preferiu canalizá-lo na música,
ao invés de entrar em gangues como era costume, sempre
tendo a companhia do irmão Donal.
Rory era apaixonado pelo
blues e pelo skiffle e corria para casa após as aulas para
ouvir os programas via BBC ou pela rário Luxembourg.
Rory queria uma atitude
mais rebelde e independente dos colegas, inspirado no que ouvia
e via nos Beatles e nos Rolling Stones. E foi nos Stones que descobriu
Brian Jones, que o inspirou a tocar slide guitar. "Brian
foi um dos músicos mais substimados de todos os tempos."
Essa
liberdade o fez largar o grupo e montar uma banda dentro dos parâmetros
que desejava: nascia o Taste. A primeira formação
do trio trazia, além de Rory, Eric Kitteringham (baixo)
e Norman Damery (bateria).
Eric e Norman integravam
o Axills e o Taste nasceu de um show em que os dois mais Rory
tocaram no mesmo dia em que o Axills fazia um de seus últimos
shows. "Por causa disso, algumas pessoas acharam que eu fazia
parte da banda, o que não era verdade, apenas tocamos juntos,
no mesmo dia. E formamos o Taste", conta Rory.
O Taste era, a grosso modo,
um acompanhamento para Rory desfilar toda sua técnica e
suas canções.
O trio começou a
construir um culto com shows na Alemanha, Irlanda do Norte, onde
eram frequentadores regulares do Maritime Hotel, local, aliás,
homenageado no disco Irish Tour. A experiência
de palco era extenuante - chegaram a tocar sete horas consecutivas
em Hamburgo - e o grupo vivia o dilema de ser obrigado a ser apresentar
em ballrooms - locais destinados às showbands -, o que
desagradava Rory.
Além disso, havia
uma lei do sindicato dos músicos da Irlanda, que obrigava
uma banda a ter, no mínimo, sete ou oito músicos.
O Taste era um trio. A saída era chamar alguns amigos e
pedir para que pegassem alguns instrumentos e fingissem que eram
músicos. "Imagine a nossa vergonha após 15
ou 20 minutos de show, quando ficava claro que apenas eles três
tocavam e nós apenas fazíamos mímica",
conta Donal Gallagher.
Com
tantos problemas em Cork, o trio acabou indo para Belfast, cidade
portuária que amava os blues, especialmente os LPs que
vinham da América e entravam pelo porto da cidade.
Nessa época, Rory
já tinha desenvolvido um estilo muito superior aos seus
contemporâneos.
Apesar de não ter
tido aulas formais, enfiava o nariz em livros e estudava sem parar.
Em Belfast, nascia o verdadeiro Taste.
Infelizmente, a primeira
formação do grupo acabou em 1968, quando entraram
Richard McCracken (baixo) e John Wilson (bateria). A banda resolve
mudar para Londres, para terem mais chances.
A
estadia em Londres logo deu resultado e, em 1969, assinam com
a Polydor, que lança o primeiro LP, Taste.
Produzido por Tony Colton,
o disco trazia nove números, sendo cinco canções
inéditas de Rory.
O Taste seguia a linha
de power trio, assim como o Cream e o The Jimi Hendrix
Experience e contaram com um entusiasmado fã: John Lennon,
que elogiou o grupo no semanário New Musical Express.
O LP trazia as seguintes
faixas:
Lado A
1. Blister On The Moon (Gallagher)
2. Leaving Blues (Huddie Ledbetter aka Leadbelly)
3. Sugar Mama (Trad. arr. Gallagher)
4. Hail (Gallagher)
5. Born On The Wrong Side Of Time (Gallagher)
Lado B
1. Dual Carriageway Pain (Gallagher)
2 . Same Old Story (Gallagher)
3 . Catfish (Trad. arr. Gallagher)
4 . I'm Moving On (Hank Snow)
No
ano seguinte, 1970, a banda lança um segundo LP, On
The Boards e saem em excursão pela Escandinávia,
EUA e Canadá, quando abrem para a mais nova banda de Eric
Clapton, Blind Faith.
A banda encerra as atividades
naquele ano, após a lendária participação
no Festival Isle of Wight, que viraria um álbum póstumo.
Produzido novamente por
Tony Colton e tendo todas as composições assinadas
por Rory, On The Boards conseguiu uma boa vendagem,
mostrando que a música de Gallagher tinha potencial econômico.
O LP trazia as seguintes
faixas:
Lado A
1. What's Going On
2. Railway and Gun
3. It's Happened Before, It'll Happen Again
4. If the Day Was Any Longer
5. Morning Sun
Lado B
1. Eat My Words
2. On the Boards
3. If I Don't Sing I'll Cry
4. See Here
4. I'll Remember
A
partir daí, Rory começaria uma bem sucedida carreira-solo,
criando a Rory Gallagher Band.
As várias formações
da RGB foram:
1970 - 1972 - Rory (guitarra
e vocal), Gerry McAvoy (baixo) e Wilgar Campbell (bateria).
1972 - 1976 - Rory (guitarra
e vocal), Gerry McAvoy (baixo), Rod D'eath (bateria) e Lou Martin
(teclados).
1976 - 1981 - Rory (guitarra
e vocal), Gerry McAvoy (baixo) e Ted McKenna (bateria).
1981 - 1991 - Rory (guitarra
e vocal), Gerry McAvoy (baixo) e Brendan O' Neill (bateria).
1992 - 1994 - Rory (guitarra
e vocal), David Levy (baixo), Jim Levaton (teclados), John Cooke
(teclados), Richard Newman (bateria) e Mark Feltham (gaita).
Sem
o Taste, Rory acabou convidando o baixista Gerry McAvoy (seu mais
fiel escudeiro em toda a carreira) e o baixista Wilgar Campbell
para um novo início. Em 1971, Rory lança seu primeiro
disco, que levaria apenas seu nome.
Produzido e escrito inteiramente
por Rory, o disco mostra um artista maduro, que ainda tocou bandolim,
sax e gaita, tendo Vicent Crane como convidado, ao piano. O álbum
teve boa repercussão e vendeu mais de 100 mil cópias.
O LP trazia as seguintes
faixas
Lado A
01. "Laundromat" - 4:38
02. "Just The Smile" - 3:41
03. "I Fall Apart" - 5:12
04. "Wave Myself Goodbye" - 3:30
05. "Hands Up" - 5:25
Lado B
01. "Sinner Boy"
- 5:04
02. "For The Last Time" - 6:35
03. "It's You" - 2:38
04. "I'm Not Surprised" - 3:37
05. "Can't Believe It's True" - 7:16
No
mesmo ano é editado o segundo álbum, Deuce,
que manteve o mesmo ritmo e sucesso. Rory não parava de
gravar e excursionar.
Como curiosidade, vale
dizer que Deuce foi um dos discos chaves na carreira de Johnny
Marr, ex-guitarrista dos Smiths.
Mais uma vez Rory assinou
a produção e todas as canções, tendo
apenas Gerry e Wilgar como companheiros dentro do estúdio.
O LP trazia as seguintes faixas:
Lado A
01. "I'm Not Awake Yet" - 5:24
02. "Used to Be" - 5:06
03. "Don't Know Where I'm Going" - 2:42
04."Maybe I Will" - 4:15
05."Whole Lot of People" - 4:57
Lado B
01. "In Your Town" - 5:47
02. "Should've Learnt My Lesson" - 3:36
03. "There's a Light" - 5:59
04. "Out of My Mind" - 3:05
05. "Crest of a Wave" - 6:00

O ano de 1972 seria o começo
de sua virada. Perto de sua maturidade musical, Rory lança
um dos melhores álbuns ao vivo da década, Live
In Europe, mostrando que tinha muita bala na agulha.
Azeitados após dois anos e inúmeras apresentações,
o trio esbanjava técnica e inventividade e foi o primeiro
LP de Gallagher a fica no Top 10 no Reino Unido.
O LP trazia apenas sete músicas,
aumentadas para nove, em CD. O LP trazia as seguintes faixas:
Lado A
1. "Messin' With the Kid" (Wells)
2. "Laundromat" (Rory Gallagher)
3. "I Could've Had Religion" (Trad. Arr: Rory Gallagher)
4. "Pistol Slapper Blues" (Blind Boy Fuller)
Lado B
1. "Going to my Hometown"
(Rory Gallagher)
2. "In Your Town" (Rory Gallagher)
3. "Bullfrog Blues" (Trad. Arr: Rory Gallagher)
Em CD, foram acrescidas
as músicas "What In The World" (Trad. Arr: Rory
Gallagher) e "Hodoo Man" (Trad. Arr: Rory Gallagher),
entre "In Your Town" e "Bullfrog Blues".
Em
uma entrevista dada a Mick Rock, jornalista e fotógrafo
da Rolling Stone e publicada no relançamento em
CD, Rory falava de sua maneira de trabalhar, organizando tudo
cuidadosamente e da alegria de ter total liberdade artística
por parte da Polydor.
Palco e estúdio
pareciam o binômio ideal para Rory, que entra 1973 com a
idéia de lançar dois LPs. E o trio agora seria um
quarteto, com a saída do baterista Wilgar Campbell e as
entradas de Rod D'eath (bateria) e Lou Martin (teclados).
 
Em ótima forma,
o quarteto produz Blueprint. Com produção
de Rory e todas as faixas compostas por ele, o disco foi um outro
sucesso comercial e trazia as seguintes faixas:
Lado 1
1. "Walk on Hot Coals" –
7:03
2. "Daughter of the Everglades" – 6:13
3. "Banker's Blues" – 4:46
4. "Hands Off" – 4:31
Lado 2
1. "Race the Breeze" –
6:54
2. "Seventh Son of a Seventh Son" – 8:25
3. "Unmilitary Two-Step" – 2:49
4. "If I Had a Reason" – 4:30
Em
CD viriam, de bônus, "Stompin' Ground" e "Treat
Her Right".
No mesmo ano, Rory volta
aos estúdios e lança aquele que é considerado
seu melhor disco, ao lado de Irish Tour: Tattoo.
Esse e Blueprint
seriam boa parte do repertório de Irish Tour, a próxima
turnê mundial de Rory.
Com o entrosamento adquirido
nos palcos, o quarteto daria arranjos definitivos às canções,
especialmente "Tattoo'd Lady", "Cradle Rock"
e a brilhante "A Million Miles Away".
O LP trazia as seguintes
faixas:
Lado A
01. "Tattoo'd Lady" - 4:34
02. "Cradle Rock" - 6:15
03. "20:20 Vision" - 4:02
04. "They Don't Make Them Like You Anymore" - 4:05
05. "Livin' Like A Trucker" - 4:19
Lado B
01. "Sleep On A Clothes Line"
- 5:13
02. "Who's That Coming" - 7:09
03. "A Million Miles Away" - 6:55
04. "Admit It" - 4:19
Em CD foram lançadas as faixas bônus
"Tucson, Arizona " e "Just A Little Bit".
Tattoo
consolidaria a carreira de Rory, que mostrava-se um compositor
de mão cheia e que não tinha medo de transitar em
diversos estilos como o rock and roll, jazz, blues, sempre com
muita consistência.
Por isso é, sem
dúvida, um dos melhores discos da década e um dos
preferidos dos fãs.
O sucesso que viria com
Irish Tour no ano seguinte, dava apenas a medida
do que já estava previsto: sucesso e prêmios como
destaque em várias revistas do planeta.
Deixo vocês com a
discografia completa do mestre. Um abraço e até
a próxima coluna.
Discografia
com o Taste
Taste (1969)
On The Boards (1970)
Live Taste (1971)
Live at the Isle of Wight (1972)
In the Beginning, an early Taste of Rory Gallagher (1974)
Take It Easy Baby (demo sessions, 1974)
Rock Is Dead (2008)
Solo
Rory Gallagher (1971)
Deuce (1971)
Live In Europe (1972)
Blueprint (1973)
Tattoo (1973)
Irish Tour (1974)
Against The Grain (1975)
Calling Card (1976)
Photo Finish (1978)
Top Priority (1979)
Stage Struck (1980)
Jinx (1982)
Defender (1987)
Fresh Evidence (1990)
Etched In Blue (1991)
BBC Sessions (1999)
Let's Go To Work (2001)
Wheels Within Wheels (2003)
The Big Guns: The Very Best of Rory Gallagher (2005)
Live at Montreux (2006)
The Essential (2008)
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