94 - U2 - No Line On The Horizon
Durante 12 anos - precisamente entre 1984 e 1996 - eu me incluí entre os maiores fãs do U2, no planeta.

Se existisse um ranking disso, aquele fã abobalhado, tenso e ingênuo, nascido em Ribeirão Preto estaria numa posição honrosa.

Mesmo não tendo dinheiro ou inglês suficiente para comprar ou entender as matérias em inglês, eu recortava qualquer coisa que saísse - jornal, revista - recortava e relia N vezes. Se um clip tocasse na tevê, parava de fazer o que fosse e ia assistir, pela milésima vez.

Quando quebrei meu pé, em 1986, foi uma fita VHS de um colega meu com o show de Red Rocks, o documentário The Unforgettable Fire e "clips raros" que me fez companhia por meses.

Poderia falar a romaria que fiz para adquirir os LPs The Joshua Tree (comprado num sábado após uma prova em um supermercado extinto chamado "Alô Brasil") e do Rattle and Hum, já morando em São Paulo, a ponto de ganhar um desconto do vendedor "pela persistência de vir aqui todos os dias atrás desse álbum nas últimas duas semanas". E poderia encher mais você, se aguentou chegar até aqui.

O U2, nesse período, me rendeu discussões quentes quando resolvi me tornar um "colecionador profissional" e saí atrás de discos de vários estilos e décadas, indo do jazz dos anos 30 ao então novo lançamento da "sensação" Radiohead. O U2 era uma das minhas obsessões, buscando piratas, singles raros, fitas, shows etc...

Várias vezes eu era desprezado por algum amante radical de rock progressivo ou de Hendrix quando falava dos quatro cavaleiros de Dublin, ainda que eu estivesse na mão com um disco que haviam elogiado. O U2 não era rock para mim, era maior do que isso, muito maior.

A banda começou a perder espaço na minha vida após aquela porcaria de show que deram em 1998, na ocasião da Pop Mart, onde eram "trilha sonora" do telão, o verdadeiro astro da noite. A banda fez um show chato, sem calor, sem alma.

Confesso que minha má impressão foi totalmente apagada vendo o show deles em 2001, em Dublin, lançado em vídeo. Aquilo sim, era o U2! Bono pulando sem parar, a banda com garra, foi de lavar a alma.

O U2 - e demais bandas - me ensinaram uma coisa: em um grande disco, as três primeiras faixas do álbum são absolutamente importantes para dizer a qualidade do disco: veja, por exemplo, The Joshua Tree: "Where the Streets Have No Name, "I Still Haven't Found What I'm Looking For" e "With or Without You". Tinha como ser um álbum ruim com esse começo matador?

Mesmo POP era um disco muito bom, apesar dos excessos aqui e acolá. All That You Can't Leave Behind tinha uma excelente abertura, apesar do restante do disco ser de torcer o lábio. Digamos que daria um excelente lado A, se fosse um vinil.

Todo esse nariz de cera é para dizer que Deus, como é chato o novo álbum do U2! Que coisa mais besta! Cinco anos para gravar isso?

Eu já havia sido alertado por uns três amigos da velha guarda para não comprar o disco, que seria uma decepção. Eu também achei que seria, mas como me fiar na opinião dos outros, se sempre saí caçando discos que ninguém conhecia e me apaixonava?

Bom, o fato é que após escutar o mesmo disco três vezes seguidas - essa é a quarta vez, enquanto digito - fico pensando: o que me levou a comprar esse disco? E, mais importante: o que levou a banda a gravar isso?

Uma das grandes marcas do U2 sempre foram os arpejos e harmônicos de The Edge, uma das grandes assinaturas do rock. Pois ela está diluída entre vários efeitos eletrônicos bobos. E nada adiantou contar com "a little help of their friends" Brian Eno, Danny Lanois, Steve Lillywhite etc; o álbum é totalmente inócuo.

Está certo que a banda se aproxima dos 50 anos, mas a "vox" de Bono sumiu quase totalmente, Edge se tornou um senhor que prefere tocar mais calmamente, os arranjos de baixo e bateria ficaram sem força, enfim, um disco complacente demais para quem sempre fez rock e sempre acostumou os fãs a ouvir o U2 rock.

OK, uma baladinha aqui e acolá, um "hino" característico da banda bacana pode ser ouvido, mas isso mais parece uma banda imitação do U2 do que eles mesmos.

Bono disse que se fizesse dois discos ruins, acabaria com a banda. Bom, até hoje não ouvi o lançamento de 2004, How to Dismantle an Atomic Bomb, porque também me disseram que era meia-boca. Até penso em comprar para ouvir e se for realmente ruim, prometo mandar um email para ele e pedir que cumpra a promessa.

No Line On The Horizon não traz apenas uma das capas mais sem graça - e complacentes - da história: o que sai dele é absolutamente igual. E se não parece ver mais horizonte, como sugerem no título, então não devem merecer mais meu suado dinheiro. Fico com os discos antigos pensando como eram bons.

E como ficaram chatos. Igual a esse texto meu. Em todos os sentidos.