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Poucas bandas merecem
a fama de terem feito música para o cérebro. Com
certeza, o Talking Heads é um delas. E nenhuma foi mais
cerebral do que o quarto disco do grupo, Remain In Light e com
Brian Eno sendo praticamente um quinto membro, exercendo uma influência
imensa sobre David Byrne e ocasionando uma tensão insuportável
com os demais membros. Mas foi desta tensão que nasceu
um dos discos mais importantes e inovadores dos anos 80.
Brian
Eno havia entrado na vida do grupo em 1978, quando produziu o
segundo álbum, More Songs About Building and Food.
No terceiro, Fear of Music, começou a mudar a cara do grupo,
levando-os a explorar ritmos africanos e a trabalhar com músicos
diversos, como o guitarrista Robert Fripp, líder do King
Crimson. Mas, em 1980, sua influência extrapolava qualquer
limite.
Sob sua batuta, o grupo
mergulhou nos ritmos africanos cada vez mais, especialmente os
do nigeriano Fela Kuti. Eno armou uma senhora banda em volta dos
Talking Heads: Adrian Belew (guitarra), Jose Rossy e Robert Palmer
(percussão), Nona Hendryx (voz) e Jon Hassell (trumpete).
Além disso, meteu a mão em duas letras de Byrne
- "Crosseyed and Painless" e "Born Under Punches
(The Heat Goes On)".
O grupo dividiu as gravações
entre os estúdios Compass Point Studios, em Nassau, Bahamas
e o Sigma, em Nova York.
Quem
mais se sentia incomodado era o casal Tina Weymouth e Chris Frantz.
Como membros-fundadores, os dois reclamavam da influência
de Eno.
O que era uma ajuda considerável
em termos técnicos, no início, havia virado uma
doença, segundo eles.
"Muitas vezes achava
que Brian não se incomoda com o que a banda queria. Na
verdade, ele realmente não se incomodava. Nós éramos
apenas instrumentos para suas idéias. O problema é
que ele conseguiu se aproximar de David fortemente e os dois tentavam
nos manipular. Não foi nada fácil conviver com essa
situação", confessou a baixista, anos depois.
Tina
não estava distante da realidade, tanto que em 1981, Brian
Eno e David Byrne lançaram um LP intitulado My
Life in the Bush of Ghosts, onde exploravam a paixão
por ritmos africanos e asiáticos, através de colagens.
Para muitos, é o primeiro lançamento do ainda inédito
estilo "word music".
Mas antes do disco entre
os dois, Eno se trancou por meses com a banda para fazer o mais
ambicioso trabalho do grupo. Misturando funk com minimalismo,
Byrne explicava que a banda queria adentrar no mundo do ritmo,
fugindo do lugar-comum das canções pops tradicionais.
Isso
significava dizer trabalhar os arranjos em pequenas partes, com
grande ênfase na mixagem e nas texturas. Além disso,
David contribuía com letras cada vez mais densas, dando
brechas a inúmeras interpretações.
Lançado em 8 de
outubro de 1980, Remain In Light, ganhou efusivos
elogios da crítica, apesar das vendas modestas.
O disco trazia oito faixas,
assim divididas:
Lado 1
1. "Born Under Punches
(The Heat Goes On)" – 5:46
2. "Crosseyed and Painless" – 4:45
3. "The Great Curve" – 6:26
Lado 2
1. "Once in a Lifetime" –
4:19
2. "Houses in Motion" – 4:30
3. "Seen and Not Seen" – 3:20
4. "Listening Wind" – 4:42
5. "The Overload" – 6:00
O
disco chegou ao 19º lugar na Billboard e ao 21º no Reino
Unido. Apenas uma faixa, "Once In a Lifetime", foi lançada
como compacto e pouco sucesso fez. O vídeo trazia David
Byrne dançando como se fosse uma marionete.
A coreografia foi desenvolvida
pela cantora Toni Basil e ficou famosa por refletir alguns dos
maneirismos de Byrne no palco, como seus espasmos musculares e
movimentos nervosos, além de usar uma engraçadíssimo
óculos. Esse também seria um importante ponto de
partida para David desenvolver o seu lado visual, que chegaria
ao ápice no filme True Stories.
Remain In Light
mostra o grupo no auge de suas potencialidades em termos de idéias
e conceitos. A música era pesada, claustrofóbica
e a última faixa do disco, "The Overload", parecia
emular o Joy Division, apesar de nenhum dele jamais ter ouvido
o quarteto britânico já extinto com a morte do vocalista
Ian Curtis.
A
complexidade dos arranjos e a liberdade necessária para
que David Byrne pudesse se expressar corretamente, obrigou o grupo
a se apoiar em excepcionais músicos, durante a excursão
promocional entre 1980 e 1981.
Boa parte desse show está
capturado no disco duplo The Name of This Band is Talking
Heads, lançado em 1982.
A
banda que se apresentava era formada por: David Byrne (vocais
e guitarra); Chris Frantz (bateria e percussão); Jerry
Harrison (teclados, guitarra e voz), Tina Weymouth (baixo, guitarra,
percussão, sintetizador e voz); Adrian Belew (guitarra-líder
e backing vocals); Nona Hendryx (vocais), Busta Jones (baixo e
guitarra); Dolette McDonald (vocais e percussão), Steve
Congas (congas e percussão) e Bernie Worrell (teclados
e voz).
Boa parte desses músicos
e dessas idéias estariam juntos ao grupo anos depois no
filme e disco Stop Making Sense.
A longa e estafante turnê
e o "fantasma" de Brian Eno causaram uma ruptura entre
David e os demais membros do grupo e por essa razão o grupo
demorou três anos para lançar um novo disco de estúdio.
Mas esse assunto já foi dissecado na coluna
que fala sobre o disco Stop Making Sense.
Deixo vocês com a
discografia do grupo. Um abraço e até a próxima
coluna.
Discografia
Talking Heads: 77 (1977)
More Songs About Building And Food (1978)
Fear of Music (1979)
Remain In Light (1980)
The Name of This Band is Talking Heads (1982)
Speaking In Tongues (1983)
Stop Making Sense (1984, versão quase na íntegra,
1999)
Little Creatures (1985)
True Stories (1986)
Naked (1988)
The Best Of: Once In a Lifetime (1991)
Popular Favorites: Sand in the Vaseline (1991)
Once in a Lifetime - The Best of Talking Heads (1992)
12 x 12 Original Remixes (1999)
Once In a Lifetime (Box com 3 Cds, 2003)
The Best of Talking Heads (2004)
Talking Heads Dual Disc Brick (caixa com 8 cds, 2005)
Bonus Rarities and Outtakes (2006)
Talking Heads: The Collection (2007)
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