Entrevista – Limbo

Entrevista com GianLuca Becuzzi e D. Loop membros da banda italiana Limbo
por Beatrix Algrave



D. Loop e GianLuca  Becuzzi  ao vivo  em RomaPergunta: – GianLuca, você poderia contra como o Limbo começou e como era a cena da música italiana na década de 80?

GianLuca Becuzzi: – No início dos anos 80 eu estava estudando artes visuais em Florença. Nessa época, estava nascendo a cena musical local, uma das mais importantes da Itália. Você conhece os grupos Neon ou Pankow? A energia e criatividade desses anos agora já desapareceram, mas naqueles anos você podia sentir o cheiro no ar. Eu tinha apenas 21 anos e estava apaixonado pela música eletrônica. Então, inspirado pela atmosfera, eu decidi criar o Limbo.

Pergunta: – A Itália é um país essencialmente católico e conservador e algumas de suas músicas abordam temas polêmicos. O Limbo sofreu alguma pressão ou censura por isso?

GianLuca:– Os temas mais controvertidos das nossas canções nasceram como uma reação à cultura conservadora católica italiana. Isso ocorre frequentemente nos países onde a pressão exercida pelo poder é mais forte. O mundo artístico deveria lutar contra a moral dominante e por um caminho livre para se expressar. No entanto, o Limbo sempre trabalhou no circuito underground e por essa razão nunca encontramos sérios problemas de censura.
Diego – Temos que admitir que nos últimos anos do Limbo, nossas canções eram menos “extremistas” e “excessivas” em comparação ao passado (ouça nosso cd Compendium: The Light Fall, especialmente as canções “Widowmaker”, “L’Amour Sadique” ou “Madre, Chiesa, Libido”. Mas, até por isso, não conseguimos atingir uma grande parcela de pessoas, porque nossas letras eram consideradas “irreverentes” ou “indecentes” pela maioria e elas nunca seriam tocadas em televisões ou rádios, ainda que tivessem boas melodias e um belo ritmo.

Pergunta: – Uma de suas maiores influências é o Kraftwerk. Por falar nisso, eles tocaram aqui no Brasil em novembro. Vocês já os viram ao vivo? Qual foi o impacto deles no Limbo?

GianLuca: – Eu os vi em 1991, durante a “The Mix Tour” e foi uma experiência surpreendente para mim. Eu sou um grande fã há vários anos e tenho todos os discos. Penso que todo mundo que escreva canções usando um sintetizador, samplers ou baterias eletrônicas é um filho ou neto do Kraftwerk. No estilo do Kraftwerk há sementes de todos os gêneros musicais: synth-pop, electro, techno, hip-hop, etc. Estou convencido que eles representam para música pop eletrônica o que Stockhausen representou para a cultura da música eletrônica.
Diego Loop:– Eu também sou um grande colecionador de Kraftwerk desde 1986 e devo admitir, com grande tristeza, que perdi o último concerto deles em Roma (maio passado) por compromissos profissionais. Após ouvir todos os discos e ver todos os vídeos desse concerto, lágrimas caíram dos meus olhos…

Pergunta: – Uma vez que o Limbo não existe mais, que tipo de projetos estão desenvolvendo atualmente?

GianLuca BecuzziGianLuca: – Meus interesses artísticos mudaram radicalmente nos últimos anos. Por essa razão, meu novo projeto solo, chamado Kinetix e que começou em 1999, é completamente diferente do que fiz até hoje com o Limbo. A produção artística do Kinetix é caracterizada por uma forte experimentação, pelo interesse de expressar as possibilidades oferecidas pelas tecnologias digitais e por uma clara inclinação estética apontando para formas minimalistas e micros sons e ruídos. Kinetix lida com música computadorizada, arte, instalações sonoras e design sonoro. As relações entre tudo isso representam os temais principais do Kinetix, e o primeiro lançamento é Selected e missions e foi lançada pelo selo Small Voices no dia 29 de abril de 2004 (mesma data em que Compendium, do Limbo saiu pela Cursed Land Ent.). Para maiores informações visitem o site www.kinetixlab.com .
Diego:– Estou trabalhando como produtor e programador de vários projetos como Kirlian Camera, First Black Pope e Artica. Enquanto isso, eu recebi outras propostas de outros grupos italianos, mas no momento estou trabalhando (ao vivo e em estúdio) com um grupo gótico chamado Vespertilia, em um novo trabalho experimental com Ginaluca (que não demos nome ainda), e, em outubro, reativarei minha antiga banda Kebatraume com um novo nome: Ktraume.
Além disso, Vince Mustone (que foi do Limbo de 1987 até 1992), após anos de silêncio, lançou no outono de 2003 o disco de estréia de seu novo projeto chamado Narr!, que se chama Souls are Flying Now!. Enquanto Kinetix e Ktraume são totalmente diferentes do que o Limbo fazia, o Narr! Tenta resgatar os caminhos que percorremos em nossos três primeiros trabalhos, mas que soa muito mais como os grupos Hocico e Suicide Comando.

Pergunta: – No Brasil, a música italiana é famosa por causa das óperas, Rita Pavone e a disco. Por favor, contem mais sobre a cena eletrônica de seu país. Vocês são mais famosos na Itália ou em algum outro país, como a Alemanha, por exemplo?

GianLuca: – Nós somos bem conhecidos (mas não famosos!) essencialmente na Itália, mas também no resto da Europa, dentro do circuito underground. O Limbo é uma cult-band e temos uma pequena, mas sólida base de fãs pela Europa. Os italianos ouvem outros tipos de música. Gótica, industrial, EBM representam um pequeno circuito aqui.

Diego Loop também conhecido como D. Loop Diego:– Eu gosto muito de opera e italo-disco, já que comecei em 1983 como dj e gosto de quase todos maxi-singles italianos lançados na primeira metade dos anos 80. Mas há muito mais, começando por artistas contemporâneos como Bruno Maderna, Luciano Berio, Luigi Nono até chegar aos artistas experimentais da década de 70 como Franco Battiato, Antonius Rex/Jacula, Doris Norton, Chrisma (Krisma in the 80’s), Maurizio Bianchi.
A cena dos anos 80 foi muito rica:: Neon, Kirlian Camera, T.A.C., F:A.R., Pankow, Ain Soph, Limbo, Sigillum S, Nightmare Lodge, Le Forbici di Manitu’, Dsordne, Gerstein, M.T.T., mas, talvez, para você sejam apenas nomes. Sugiro que preste atenção a uma revista russa chamada I.E.M., na qual lançou uma encilcopéida (com 6 cds encartados!) sobre a cena experimental italiana. Visite o site: http://iem.nigilist.ru/en/announce1.html .

Pergunta: – Vocês fizeram covers de Joy Division, Metallica e Velvet Underground. Poderiam me dizer suas influências e seus discos favoritos?

GianLuca: – No disco Continuum: The Fire Front eu fiz versões de grupos que me influenciaram nos primeiros 15 anos do grupo, gente como Throbbing Gristle, Suicide, Joy Division, Kraftwerk, Clock DVA, etc… Mas hoje meu set list é completamente diferente: Ryoji Ikeda, Alva Noto, Mika Vainio, Bernhard Guenter, Richard Chartier, Kozo Inada, etc…
Diego:
– Meus discos favoritos de todos os tempos são: Electric Cafe (Kraftwerk); Black Celebration (Depeche Mode; Alles Ist Gut (D.A.F.); Crackdown (Cabaret Voltaire -); Suicide (Suicide); Tyranny For You (Front 242); Face To Face (Klinik); Tactical Neural Implant (Frontline Assembly);Belief (Nitzer Ebb); Buried Dreams (Clock DVA).

Pergunta: – A música do Limbo é pouco comercial. É possível viver apenas disso ou vocês possuem outros empregos?

GianLuca: – Seria muito bom se tivéssemos sucesso e pudéssemos viver exclusivamente da nossa música, mas na Itália é quase impossível, a não ser que faça música comercial. Já tive vários empregos e hoje em dia sou porteiro noturno de um hotel à beira-mar!
Diego: – É impossível vivermos somente com o Limbo. No momento eu trabalho como músico de estúdio e também faço produções e remixes para grupos italianos. Além disso, sou dj e toco outros tipos de música, como trance, house, industrial/EBM, wave/gothic, 70’s/80’s e me apresento em lugares diferentes como pubs, pequenos clubes e até grandes discotecas.

Pergunta: – “Hermaphrodita” é uma “cult song” aqui e o Brasil tem um dos maiores mercados para a música gótica no planeta. Isso é surpresa para vocês? Já receberam algum convite para tocarem aqui?

GianLuca: – Sim, estou surpreso. Nunca recebi um convite para tocarmos Brasil. No entanto, eu nunca estive muito dentro da onda gótica, porque sempre preferi a música eletrônica.
Diego: – Eu não estou surpreso com isso porque nos últimos cinco anos as cenas gótica e industrial mudaram muito. Penso que hoje o maior mercado na Europa para esse tipo de música é a Grécia, um país muito distante dos modismos europeus. Sinceramente, estou fascinado ao descobrir novos horizontes, porque nos últimos anos, a Itália, Inglaterra e Alemanha se tornaram países tediosos. Com o Kebatraume eu viajei pela ex-Iugoslávia (atual Sérvia e Montenegro), Hungria, Romênia, Grécia e me senti muito mais feliz do que ver milhares de pessoas cansadas com os shows de EBM. Além disso, a Itália é um país que sofre de xenofobia e trata as bandas com suficiência. Adoraria tocar no Brasil com o Ktraume em um futuro próximo.

Pergunta: – O que conhecem de música brasileira, além da bossa nova?

GianLuca: – No momento apenas o nome do Sepultura me vem à mente.
Diego: – …e também o do Soulfly. (banda de Max Cavalera após deixar o Sepultura).

Pergunta: – Por favor, deixem uma mensagem para seus fãs brasileiros…

GianLuca: Mantenham a cabeça aberta e sempre olhem para o futuro.

Um comentário

  1. Muito legal essa entrevista…Desde os anos 90 sou fã dessa banda, desde que ouvi os primeiros hits na pista. Parabéns

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