QUANDO SUBI NO NOTURNO, o chefe veio me avisar que minha companheira de cabine, uma senhora muito distinta, ficaria com o leito inferior, isso se eu não fizesse questão.

Não fiz questão. Quando voltei do carro-restaurante, a velha senhora já estava recostada nos travesseiros, comendo biscoitos com geléia. Usava uma camisola de flanela com florinhas azuis, os olhos também azuis – só faltava a touca de rendinhas para compor a gravura antiquada da velha dama insistindo para que eu aceitasse um biscoito com geléia de maçãs colhidas no seu próprio quintal, foi a nora que lhe mandou a receita, eu não gostava de geléia? Sentei-me na beirada da cama e na semi-obscuridade da cabine (acesa apenas a luz embutida na cabeceira) pude ver que sob o branco esfarinhado da velhice ainda lhe restara alguma beleza, por acaso era alemã?


Não, nenhuma ascendência estrangeira, o filho único é que se casara com uma austríaca, era médico. Formou-se, ganhou uma bolsa de estudos na Alemanha e hoje era um psiquiatra importantíssimo, diretor de uma clínica em Viena. Tão feliz com a mulher, os cinco filhos e os netos, dois alemãezinhos lindos que não sabiam uma palavra sequer de português e era preciso? Limpou os cantos da boca com um lenço de papel que tirou da sacola e falou com brandura enquanto tapava o vidro de geléia: saudades? Ah! Sim, no início a saudade era quase insuportável, mas ela e o marido acabaram se acostumando, a gente se acostuma com tudo, não é verdade? A gente só não se acostuma com a morte, ela disse e a sombra de uma sombra passou rápida pelos seus olhos transparentes. E pensar que ele estivera à beira do suicídio! Sim, esse filho tão bonito, tão brilhante, as melhores notas da turma. Mas sob aquela aparência tão disciplinada, tão saudável se escondia um segredo terrível, soube naquela noite mesmo, quando ele chegou e se trancou no quarto e ela desconfiou, Abra, filho! Pediu batendo com os punhos na porta, o marido viajando, a empregada fora, abra esta porta! Suplicou porque via como se a porta fosse de vidro, o desespero dele, em prantos, escondendo o revólver debaixo do travesseiro, Abra esta porta, filho! Quando se deitaram é que sentiu aquela coisa dura sob o travesseiro de penas, levou-o depois no bolso do roupão e ele…

No solavanco mais forte do trem, apagou-se a luz da cabine, só ficou a voz subitamente rejuvenescida no estilo seco, galopante. O jovem era um edipiano feroz que muito cedo descobriu que a impotência sexual vinha desse complexo, ódio pelo pai, paixão pela mãe, aquela embrulhada que desesperadamente tentou desembrulhar com amores devassos, com amores castos, tentativas com donzelas, prostitutas, negras e arianas, lésbicas e homossexuais, quem sabe era um homossexual enrustido? Antes fosse, o drama seria solucionado, Mas tudo em vão, continuava a ansiedade, o sofrimento: tentou análises, terapia individual e de grupo, choques, chegou a recorrer a um padre muito bonzinho que fizera sua primeira comunhão, ficaram amigos, pensou mesmo em entrar para um convento mas desistiu, outra fuga? Voltou à vida dupla porque teve que se dividir em dois, o moço estudioso, tranqüilo e o outro – o delirante na busca que não lhe dava trégua, mais uma tentativa, outra ainda e nada. NADA. O gozo só vinha mesmo na masturbação, quando se fazia menino, um nenê pedindo o peito,a ejaculação doloridíssima suavizada pela lembrança do leite morno na boca. Mas porque não me contou, filho?! Perguntou também desfeita em lágrimas, a mãe, sempre a última a saber, tão contentinha andava com o sucesso do filho. E ele se castigando na luta pelas melhores notas, pelas medalhas de ouro nas corridas de resistência ou atirando dardo, peso, disco – Ah! Se pudesse se flagelar com um chicote! Então se deitaram chorando e se consolando, tamanha a solidariedade e a compreensão que foi com naturalidade que da compreensão passaram para a ação num amor que durou essa noite (quando ela achou o revólver) e se estendeu por toda a semana que antecedeu a viagem, quando se buscavam e se encontravam no desejo nítido, sem tibiezas. Abrasador. Difícil explicar o inexplicável, mas no silêncio e No escuro do casarão foi se fazendo ordem lá dentro dele, as coisas desajustadas se ajustando nos lugares: rompeu-se o cordão umbilical e dessa vez para sempre. Ele pôde renascer inteiro. E assim continuava lá na bela Viena, realizado, felicíssimo. E não é que em seguida as relações dela com o marido (que Deus o tenha”) também se fizeram mais profundas, mais plenas?

A luz voltou na cabine, azul e tão pálida que ela mal pôde ver as horas no reloginho de pulso. Ih!, que tarde, queixou-se e a voz voltou tão esmaecida com a luz, era uma velha novamente. Gostava desse reloginho de pulso, presente dos netos, pena é que os números eram tão complicados, difícil de entender esses números modernos, preferia aqueles tradicionais, graúdos. Se dormia bem em trem? Como uma criancinha, ah, adorava esse balanço, não parecia um berço?

Subi para o leito superior. Quando acordei de manhãzinha, ela já tinha desembarco. Na cabine, um perfume adocicado de maçãs.