Limbo

BecuzziLimbo é um projeto musical que surgiu centralizado na nascente cena eletrônica que se iniciou na segunda metade dos anos 80. Foi criado em fevereiro de 1984 por iniciativa de GianLuca Becuzzi. Durante o curso de 20 anos de atividade o grupo Limbo produziu 12 albuns e participou de numerosas compilações além de realizar vários concertos e performances na Itália e outros países da Europa como Alemanha, Suíça e Áustria. Passou por várias gravadoras independentes e também mudou diversas vezes de estilo flertando com os gêneros Gótico, Industrial, Cyber Metal e EBM. Teve também inúmeras formações, mas sempre contando com a presença marcante de seu fundador: GianLuca Becuzzi (também conhecido como G. Luca B.), principal músico, vocalista, compositor de todas as canções do projeto. Entre os anos de 1996 e 1998, ele chegou a ser o único integrante do grupo, na verdade uma banda de um homem só. Essa formação, aliás, durou até a entrada do tecladista e programador D. Loop.

Em 2004 foi lançada uma coletânea do grupo, mas na verdade o projeto não existe mais, seus integrantes contudo continuam na ativa, agitando a cena eletrônica italiana.

As principais características do Limbo estão na sua densidade rítmica, na busca de diferentes tímbres sonoros e na carga dramática dos temas de suas canções. Estão quase sempre presentes nas letras do grupo assuntos como tecnologia (aqui mostram sua admiração especial pela banda Kraftwerk), misticismo, ciência, neoprimitivismo, tanatologia, perversões sexuais e sensualidade extrema.
A qualidade estética e a coerência conceitual de seu trabalho valeu ao Limbo a fama de “cult” no circuito underground internacional. Além dos trabalhos do projeto Limbo GianLuca Becuzzi também gravou alguns discos com os nomes de Saint Luka e Metaform, foi também cantor e compositor do grupo Pankow (em álbum homônimo), além de ter colaborado várias vezes com os conterrâneos Kirlian Camera.

O grupo italiano Limbo apesar de ser uma banda underground pouco conhecida fora da Europa, tem como seu trabalho mais conhecido aqui no Brasil, sem dúvida nenhuma, a música “Hermaphrodita”, que aparece em quase todas as coletâneas locais de gótico, e é até hoje, muito pedida em pistas de dança. Entretanto pouco se sabe sobre está banda, uma espécie de “one hit wonder” gótico. A banda não existe mais, e teve em sua carreira como único integrante fixo o músico Gianluca Becuzzi, compositor e vocalista, além de uma figura muito interessante e controversa da cena EBM italiana. O Limbo, apesar de pouco conhecido por tratar-se de um grupo de música eletrônica underground, é considerado um dos mais importantes grupos de dark EBM da Itália e têm vários trabalhos lançados em pequenas gravadoras, infelizmente nenhum deles lançado no Brasil. O nome da banda foi tirado da Divina Comédia de Dante Alighiere. O “limbo” na religião católica representa o lugar para onde vão as almas que mesmo sendo boas não receberam o batismo por falta de oportunidade, à exemplo das crianças pequenas não batizadas, que a Igreja Católica chamava de pagãozinhos. No livro de Dante é lá que estão os filósofos, poetas e grandes homens da antiguidade pagã, a exemplo do próprio Virgílio, que conduz Dante em seu périplo através do inferno e do purgatório, ou seja em Dante o limbo é, certamente, a ante-sala dos mundos infernos. Havia pouco sofrimento no Limbo, mas diferentemente do purgatório, não havia nenhuma esperança de saída, era por assim dizer “um compartimento do inferno com ar–condicionado”. Limbo é ainda um lugar sinônimo de indiferença, onde o nada prevalece. Limbo é a indeterminação, o vazio, a dissolução o vácuo.

Seu primeiro trabalho é a fita cassete homônima Limbo lançada em 1984, produzida de forma totalmente independente e que teve circulação exclusivamente no meio underground da cena eletrônica. O primeiro single In Limbo de 1985, hoje em dia raríssimo de se achar, foi lançado pela independente italiana Spittle Records.
My Whip your flesh lançado em 1989, dessa vez pela Mantra Records, define bem o estilo da banda com suas batidas eletrônicas EBM com toque dark. Os temas e a voz grossa e soturna de Becuzzi, sempre cantando em italiano e latim (algumas também em inglês, especialmente covers) dão um tom eclesiástico e ao mesmo tempo profano às canções.

Aliás, falando nos temas, os preferidos da banda são paganismo, perversões sexuais, incesto, estupro, e principalmente, a morte, esse, aliás é um tema tão recorrente nos trabalhos da banda que Becuzzi chega a dizer que o conceito essencial de seu trabalho é a tanatologia, ou seja o estudo da morte. Essa identificação com a morte é tão forte que beira a necrofilia, aliás esse também é o tema de algumas canções. Essa fixação mortícia prossegue em trabalhos como Our Mary of Cancer de 1991 e Vox Insana de 1992, essa última traz para a variada pauta do Limbo o tema loucura. Com as batidas eletrônicas do Limbo é possível dançar sim, mas a impressão que fica é de uma dança macabra, como a da famosa série de gravuras grotescas da Idade Média.

Evirazone totemica seriale é lançado em 1993 e conta com a co-produção do engenheiro de som e produtor musical Federico Panero. Este trabalho é na verdade um ritual pagão em forma de disco, uma bacanal musical, regada a muito sangue, sexo e desespero. Em 1997 lançaram uma coletânea de remixes de 10 músicas sob o título de Hell’s gate visions (1986/1996): A total revision, que traz canções do grupo em versões dark eletrônicas remixadas. O trabalho inclui uma versão do clássico do Velvet Underground “Venus in furs”, além de uma nova gravação do sucesso “Hermaphrodita”. Traz também as músicas “Eros et Thanatos” e ” Meopenis in tua vulva” com sinistros toques de sino e uma voz realmente obscura. Apesar da diferença entre essas faixas e as versões originais é uma coletânea interessante tanto para fãs como para quem nunca ouviu falar da banda e desconhece seus trabalhos anteriores. L’Etre Et Le Neant, evidentemente de inspiração satreana, é mais um elogio ao desespero que quer induzir à náusea, aqui é claro em termos filosóficos, apesar da aparente pretensão consegue atingir o objetivo, ou seja, se ouvir e quiser se matar depois, não diga que eu não avisei.

Uma característica que é importamnte destacar em relação à banda são seus inúmeros covers de vários artistas diferentes, passando por Velvet Underground, Metallica, Joy Division e Kraftwerk. O Limbo entretanto não é nem um pouco fiel às gravações originais deixando-as praticamente irreconhecíveis, apesar disso não ser de modo nenhum ruim, pois algumas dessas canções ficam de fato excelentes. Além das covers, Becuzzi ainda faz questão de gravar versões em sua língua pátria. Um exemplo dessa tendência do grupo é o single Siliciolatria (1995), que traz um medley de canções do grupo alemão Kraftwerk. Angelo Bergamini músico do grupo italiano Kirlian Camera fez participações especiais nos discos Siliciolatria (1995), Sein Und Zeit (1996) e Cospiratorium: The Ice Line (2000).
Entre 1996 e 1998, o Limbo tornou-se uma banda de um homem só, com a participação de apenas Becuzzi. Porém em maio de 1998, o tecladista D. Loop (vindo do grupo italiano electro-industrial Kebabträume) foi convidado por Becuzzi para tocar, na faixa “Red Latex Jesus”. O convite para tornar-se membro do Limbo foi feito no final de 1999.

Em março de 2000 para comemorar 17 anos de atividade o grupo lançou o disco Cospiratorium: The Ice Line. Com a formação duo realizam uma turnê pela Itália em 2001.
Além do Limbo, D. Loop, assim como Becuzzi, também colaborou com várias bandas e artistas da cena eletrônica italiana. Em 1996 gravou com o grupo Kebabtraume (que depois se tornaria Ktraume).

Por lançar discos apenas em pequenas gravadoras independentes e com pouca distribuição, os trabalhos da banda só são encontrados na Itália e na Alemanha, o jeito é contentar-se com a presença de músicas da banda em coletâneas que chegam aqui, ou então mandar importar direto da Itália. O último trabalho lançado pelo grupo é o disco Compendium: The Light Fall, que saiu em 2004 pela gravadora Cursed Land, e que faz parte de uma seqüência temática que iniciou em 1999 com o trabalho Continuum: The Fire Front, são trabalhos que priorizam covers das bandas admiradas por Becuzzi e já citadas aqui, como Velvet Underground e principalmente Kraftwerk e Joy Division. Compendium: The Light Fall também contou com a participação de D. Loop nos teclados, programação e samplers. Após o lançamento desse álbum, que inclui as melhores canções lançadas entre 1984 e 2000 em versões alternativas e uma faixa inédita, o Limbo encerrou suas atividades, oficialmente em fevereiro de 2004.
Entretanto os ex-membros da banda continuam na ativa, Gianluca atualmente está envolvido com o projeto Kinetix, Vincenzo Mustone, outro integrante da banda, atualmente participa do NARR e D. Loop está envolvido com o projeto KTRAUME novamente.
Deixo vocês com a letra de uma canção que aparece no controverso disco Evirazione totemica seriale.

Tenebra a vista
Tenebra a vista, Tenebra a vista (… into the darkness)
Collassano i corpi, gli storpi alle serpi
Tenebra a vista, Tenebra a vista
Defeca sull’ostia, rivela la bestia
Tenebra a vista, Tenebra a vista
nel sangue l’onore, l’amore, il dolore
Redatta la lista disseta la frusta
cuore du cuoio, cuore di cuoio
Sulla santa croce, cosparge la pece
cuore di cuoio, cuore di cuoio
Attende nel buio, affila il rasoio
cuore di cuoio, cuore di cuoio
In spirito è Marte, in arte è la morte
Sul nodo scorsoio l’antico avvoltoio
Lei comandò DISTRUGGI NEW YORK
A ferro e a fuoco la nera New York
Tenebra a vista, tenebra a vista
Tradisce la voce di chi giace in croce
Tenebra a vista, tenebra a vista
Defeca sull’ostia, rivela la bestia
Tenebra a vista, tenebra a vista
Nel nome del male Maria sado-anale
Redatta la lista disseta la frusta
Lei comandò DISTRUGGI NEW YORK
A ferro e a fuoco la nera New York.

Membros do projeto Limbo

Gianluca Becuzzi: voz, teclado, letras, programação, samplers (desde a criação do grupo em 1984 até fevereiro de 2004)
Carlo Malegni: teclado (de 1984 a 1985)
Bruno Farese: teclado (de 1984 a 1987)
Ennio Benassi: baixo (de 1985 a 1987)
Vincenzo Mustone: teclado, programação e samplers (de 1987 a 1992)
Giovanni Fiaschi: guitarra, violino, programação e samplers (de 1991 a 1995)
Silvio Pucci: guitarra, baixo (de 1991 a 1995)
Diego Loporcaro (D. Loop) : teclado, programação e samplers (de fevereiro de 1998 até fevereiro de 2004)

Discografia

1984. LIMBO (Fita cassete – Limbo)

1986. POISONED KISSES IN LIMBO ( MLP – SPITTLE )

1989. MY WHIP, YOUR FLESH ( LP – MANTRA )

1991. OUR MARY OF CANCER ( LP – HELTER SKELTER )

1992. BLACK álbum ( CD – HELTER SKELTER )
Nota: Esta coletânea inclui Our Mary Of Cancer mais uma parte de My Whip, Your Flesh.

1992. VOX INSANA ( LP/CD – DUNE / CONTEMPO )

1993. EVIRAZIONE TOTEMICA SERIALE ( CD – DUNE / ABRAXAS )

1995. ZOS KIA KAOS ( CD – LUDWIG II / DISCORDIA )

1995. SILICIOLATRIA ( MCD – LUDWIG II / DISCORDIA )
Nota: Este mini-CD inclui quatro remixes do disco ZOS KIA KAOS, mais duas faixas que ficaram de fora deste álbum.

1996. SEIN UND ZEIT ( CD – DISCORDIA )

1997. HELL’S GATE VISIONS [1986/1996: A TOTAL REVISION] ( CD – TRITON )
Nota: Esta coletânea inclui as melhores faixas lançadas entre 1986 e 1993 que foram regravadas em novas versões no ano de 1996.

1998. L’ÊTRE ET LE NÉANT ( CD – SOLAR PLEXUS / NOVA-TEKK )

1999. CONTINUUM: THE FIRE FRONT ( CD – ENERGEIA )
Nota: Trata-se de um álbum de covers.

2000. COSPIRATORIUM: THE ICE LINE ( CD – ENERGEIA )

2004. COMPENDIUM: THE LIGHT FALL ( CD – CURSED LAND ENTERTAINMENT )
Nota: Esta coletânea inclui as melhores canções lançadas entre 1984 e 2000 em versões alternativas e uma faixa inédita.

Participações em Coletâneas

Comin’ Down Fast! (CD Helter Skelter), 1993
Contemporock (CD Opcion Sonica), 1993
Zwischenfall: From The 80’s To The 90’s (CD Subtronic), 1994
Taste This Vol. 3 (CD Discordia), 1995
Taste This Vol. 6 (CD Discordia, 1996
Krafty Move (CD Energy), 1998
InNOVAtion Zwei (CD Nova-Tekk), 1998


Por Beatrix Algrave