O anjo estuprador

Na parada

Maria espera o ônibus. São 23:00h da noite. O motorista do ônibus, que se esqueceu que há moças e rapazes que dependem da condução pra retornar ao lar, parou no bar pra tomar umas com os amigos. Ora, quinze minutinhos não vão matar ninguém! Mas, o que Maria tem a ver com isso? Alguém bonita como Maria não pode ficar esperando. O marido dela é um homem insuportavelmente ciumento!

A fera há de pensar que ela o trai (mas como é tolo esse e todos os homens e mulheres que tomam a ausência do ente amado pelo ciúme! Será que alguém precisa realmente estar para trair?). Tudo bem, não nos esqueçamos de Maria. Ela fez um extra pro idiota do chefe da repartição esta noite. Não deu outra: perdeu o ônibus e, pelo visto, o motorista do corujão não está com pressa. Ela está nervosa. Acende um cigarro e anda d’um lado pro outro. Rói as unhas negras esmaltadas. Já são 23: 45h. “Essa droga de ônibus que não passa! Meu marido vai me matar!”.

O estupro

A rua está deserta, quer dizer, quase deserta, pois há um casal de morcegos de ponta cabeça no alto de um prédio. Ela está tão perturbada, que não consegue ouvir o crepitar de uma folha seca, os passos de alguém que se aproxima… Zás! Um homem com máscara de palhaço agarra Maria pelas costas e, tapando a boca dela, arrasta-a para um terreno baldio, próximo à parada. Lá no coração do lote, na mata selvagem do medo e da escuridão, é que o homem tira a máscara. Ele sorri e pede silêncio. É um rapaz imberbe. Têm olhos azuis e é branco como leite. Ele tira uma tira de pano vermelho e amordaça Maria. Ele é muito bom em seu “ofício”, faz tudo muito rápido, com desenvoltura e, pasmem, com uma certa “elegância”. Sim, porque ele é como um candidato a um emprego qualquer, um candidato que quer deixar a melhor impressão em seu empregador. Primeiro ele começa a lamber o ouvido esquerdo de Maria. Alterna rápidas lambidelas com seu hálito de vapor quente. Suas mãos têm a leveza e a agilidade de um artesão experiente. Ele sabe como enlouquecer uma mulher. Ela chora, mas não o odeia, pelo contrário, seu corpo quer isso. Sua razão diz que não e, no entanto, esse corpo diz sim. Esse corpo tem uma sede que não é de água. É uma revolta cheia de delicadeza, uma libertação até. Ela pára de chorar. Decidiu se entregar. Já não arranha as costas do homem, acaricia-as. Beija seu ombro nu e (ah!), alcançaram a graça…
Antes de ir, o homem abotoou um broche formato borboleta na blusa de Maria. Era uma borboleta azul, azul quase violeta, cheia de um pó áureo. Beijou-lhe a testa e foi embora sem dizer adeus. Maria, mergulhada em êxtase, levantou e dirigiu-se novamente à parada. Está atônita, está louca. De repente, súbita como qualquer chuva num dia de sol, dezenas de borboletas começam a sobrevoar o local. Elas pousam no cabelo de Maria e liberam partículas douradas. São borboletas azuis, brancas, amarelas, vermelhas, que coisa linda! Elas obedecem um ritmo, um movimento, elas dançam! Os olhos da pequena brilham, ela saliva. Maria dança.
E não é que o bêbado do motorista do corujão apareceu? Maria pegou o ônibus e pensava muito. Ela não sentia nojo. Ela sentia nojo de não sentir nojo! Como pode uma senhorita casada, respeitada, de reputação incólume, ser violentada e, ainda assim, se sentir amada? “Meu anjo branco”, pensava.

Em casa

Ao chegar em casa, o marido não diz nada. Ele é até compreensivo quando Maria lhe conta que ficou trabalhando até tarde e pegou uma carona com uma colega do serviço. Ele não quer ouvir mais nada, ele apenas quer o corpo branco e honesto de Maria. Imediatamente, ele a joga na cama e rasga-lhe a blusa. Sua saliva escorre pelo pescoço de Maria e ela tem repulsa. Não quer aquilo. Seu marido é sujo e a faz sentir suja, porque ele tem um hálito horrível de cachaça e não toma banho. Se vocês pensam que ela não quer o marido porque foi estuprada esta noite, estão enganados. O ato sexual em si não é violento. A violência sexual é psicológica. O estupro está na mente, no coração, no ser que não pode corresponder ao desejo do outro. É o que acontece à Maria. Ela não ama o marido, ela tem desprezo por ele. Casou-se para ter a estabilidade de uma vida confortável mantida por um senhor de 50 anos, mas isso não basta. Seu corpo amou um homem desconhecido esta noite. Seu corpo é violentado pelo marido todos os dias e todas as noites. Borboletas morrem.


Por Rafael Mendes – 13/12/2004