Não entendo porque um garoto queira ser goleiro. Antigamente, eu até entenderia. Costumávamos colocar no gol o pior de nós: o inepto. O inepto não tinha domínio de bola, não sabia passar e não sabia driblar, aliás, era driblado com freqüência pela bola. Com muita sorte, o inepto dava um bom goleiro. Aqueles que obtiveram sucesso na posição, tinham relativa preferência dos peladeiros de fim de semana:
– Inepto, pega pra gente. Certo?
– Tudo bem.

Às vezes, dava até briga:
– Inepto, agarra pra gente.
– O que é isso? Eu falei primeiro, não foi inepto?
– Não falou, não. O inepto já é nosso, e não se fala mais nisso.
Não sou mais um telespectador assíduo de futebol. Não sei se isso tem a ver com o desenvolvimento de minha intelectualidade (provavelmente não). Passei a desgostar de futebol assim que tomei gosto pela literatura e pela música, lá pelos 17 anos. Questão de interesse mesmo. Sou um eventual torcedor do Palmeiras e, sobretudo, da seleção brasileira. Não perderei tempo dizendo o que todos já sabem, “que o futebol perdeu o encanto, a magia, a malícia, que o futebol competitivo se sobrepôs ao futebol arte, etc”.
O que acho estranho é o número enorme de ineptos na zaga, nas laterais, no meio do campo, no ataque e, pasmem, poucos no gol. Sim, porque temos excelentes ineptos na posição que lhes foi destinada pelos deuses da bola. Mas, na linha? Quem outorgou e promulgou a lei que permite o inepto a sair do gol e jogar na linha?
Nessas horas, lembro-me do meu amigo de infância, o Floriano. O Floriano não era ruim, ele era MUITO ruim. Então, nada mais justo (obrigatório) que colocá-lo no gol do nosso time. Participamos de vários campeonatos. É bem verdade que o máximo que ganhamos foi uma vasta experiência de derrotas. Perdíamos até com uma certa elegância, os placares não eram tão elásticos. O máximo que acontecia era a gente perder de 3×0. Mas, e o Floriano? Nos tempos de hoje, ele seria atacante (mesmo levando jeito pra goleiro); teria um contrato milionário (pelo menos pra realidade brasileira); faria comerciais pra tv (de preferência de refrigerantes); passaria férias nos Alpes (com uma bela namorada); ganharia pra não jogar (no banco ou titular, tanto faz). E, caso ele não fosse bem num clube, seria transferido pra outro, e juraria um amor de mãe à camisa do novo time, coisa que só um verdadeiro inepto é capaz de fazer.
Ainda não tenho filhos, mas sei que se um dia quiserem ser goleiros, foi porque realmente escolheram. De repente, acharam o máximo a roupa do goleiro da seleção, ou quem sabe, viram a atuação brilhante de um goleiro que salvou o time do rebaixamento, ou pensaram que defender um pênalti numa final de campeonato é melhor do que fazer um gol decisivo. Sei lá! Só sei que não serão ineptos na linha porque não quiseram, não desejaram. Nestes tempos de vacas e crianças magras, o inepto não pode reclamar, pois mais do que ninguém, têm todas as condições de desenvolver sua inaptidão para o trato com a bola, e ainda, receber bem pra isso.
Em tempo: O Floriano, anos depois, tornou-se técnico. Técnico em enfermagem.


por Thomas Rafael Durley - em 07 de fevereiro de 2005