Silhoueta Maldita

A única coisa que eu consigo sentir agora é medo! Medo do escuro. Medo de ficar exposto ao negrume da noite, que apenas me faz sentir repulsa pelo que se esconde atrás da humanidade. Medo do estranho, do indizível. Medo de ficar só, aqui nessa cela. Tenho até questionado a minha própria sanidade, acreditando até nos mais céticos para os quais contei sobre o ocorrido. Ninguém acredita em mim. Crêem apenas que isso seja uma desculpa para o que cometi.

Nada mais correto do que eu mesmo narrar os fatos pelos quais passei. Posso ser tachado de mentiroso, de uma fraude, mas nada nesse mundo me faz esquecer do último seis de agosto.
Eu nada mais tinha para fazer naquele final de tarde, além de ir à locadora de vídeos devolver um vhs que eu tinha alugado, que por sinal era uma ótima obra do expressionismo europeu de 1922.
Logo após ter tomado banho, peguei o vídeo e fui à locadora. A noite já começava a tomar conta do céu, então me apressei para não correr o risco de ser roubado, já que a segurança na minha rua não era das melhores. Em dois minutos cheguei na locadora e devolvi o filme e sai de lá sem atrasos, para não comprometer a minha volta.
Após ter dados alguns passos, percebi que a noite parecia estar mais escura e uma sensação estranha pairou sobre o meu corpo. Parei por um instante e olhei ao meu redor, mas nada tinha além dos postes e casas. A rua estava completamente vazia. Voltei a andar, mas a estranha sensação ainda continuava, então quase que automaticamente olhei para a esquerda e percebi um vulto negro esgueirando-se atrás de um dos postes luminosos. Fiquei aterrorizado por um momento, mas logo depois cheguei a conclusão de que não passava de uma sombra, vendo que já estava de noite e que tinha muitos postes nesse trajeto.
Quando cheguei na porta do edifício olhei mais uma vez para trás por precaução, mas nada tinha. Entrei e fui direto à cozinha procurar algo para degustar.
Preparei o meu precioso lanche com uma certa pressa e fui devorando mais rápido ainda. Estava realmente uma delícia! Sempre prezei por uma boa gastronomia, mas não tinha muitos modos na hora de comer, e por isso acabei não ingerindo um pedaço daquele delicioso sanduíche adequadamente e acabei engasgando. Peguei o primeiro copo que tinha na minha frente e fui enchê-lo d´água, mas a tosse estava tão forte que acabei derrubando-o no chão. Mesmo engasgado, agachei-me para juntar os cacos de vidro no chão e então senti novamente aquela mesma inquietude que estava sentindo lá fora. Olhei em direção à sala e vi um estranho contorno escuro próximo ao sofá. Voltei a tossir e quando olhei novamente percebi que aquela silhueta havia sumido juntamente com a minha tosse, que particularmente, acho que cessou por causa do medo.
Fiquei alguns minutos dentro da cozinha sem me mover e sem ao menos conseguir pensar, mas acabei recuperando rapidamente os meus sentidos e fui em direção à sala, provar que minha mente havia pregado algum tipo de travessura comigo. Nada havia na sala.
Novamente senti uma estranha sensação, como se tivesse alguém ou algo além de mim naquela sala, mesmo sabendo que eu estava sozinho, pois meus pais tinham viajado um dia antes e só voltariam dentro de três dias.
Tirei a blusa, joguei no sofá e fui em direção ao meu quarto a fim de ligar para um amigo e chamá-lo para me fazer companhia.
Ao passar pelo corredor, senti um estranho vento frio passar pelo meu ombro direito. Parecia que alguém tinha passado do meu lado, mas nada tinha atrás de mim. Entrei no meu quarto, peguei o telefone e liguei para o meu amigo.
Conversamos algumas baboseiras de praxe, mas acabei pedindo para que ele viesse até o meu apartamento porque eu estava com uma estranha sensação. Ele começou a rir, mas disse que dentro de alguns minutos chegava em minha casa para procurarmos algo para fazer e então desliguei o telefone. No mesmo instante, o telefone toca. Pensei que fosse meu amigo para me perguntar algo, mas nada parecia existir do outro lado da linha. Perguntei algumas vezes quem era, ou se era meu amigo pregando algum tipo de brincadeira, mas nada além do silêncio. Desliguei, mas novamente o telefone torna a tocar, mas dessa vez não havia silêncio. Só se ouvia ruídos estranhos, algo eletrônico, impossível de entender, mas percebia-se que o que quer que estivesse do outro lado da linha, tinha algo para me dizer. Fiquei muito assustado, então desliguei o telefone e o tirei da linha.
Fiquei aterrorizado ao perceber uma outra sombra, além da minha, parada na minha frente. Olhei para trás e vi que não tinha ninguém, mas quando retornei o olhar para frente, a sombra tinha se aproximado mais, como se ela pudesse flutuar no ar. Meu coração batia forte, a ponto de meu peito doer. Ela era dotada de olhos vermelhos penetrantes, como se fossem da cor do sangue.
Pergunto-me até hoje porque, mas resolvi tocá-la. Não era vazia como eu pensava que fosse, mas parecia uma longa seda negra. Minha mão ficava quase congelada ao passar sobre aquele negrume dotado de olhos. De repente, aquela imagem some da minha frente.
Após alguns minutos sem nada de extraordinário acontecer, a campainha toca. Era meu amigo, que trazia consigo um filme de terror barato na mão. Ele percebeu que a minha aparência não estava das melhores, mas acabei não dizendo nada e então decidi que o melhor para fazer agora depois disso tudo
era assistir ao filme, já que eu não estava mais sozinho. Resolvi também que era melhor a luz permanecer acessa.

O filme era bem tosco, daqueles italianos do início de 80. Não havia mais de quinze minutos de filme e já tinha aparecido quilos de tripas. Subitamente a luz e a TV apagam. Aquela sensação desconfortante volta a me perturbar. De repente surge um estranho grunhido, que de longe parecia um som que apenas porcos pudessem produzir, mas era mais gutural. Estava terrivelmente escuro, como se a lua tivesse sido tragada pela noite. Nada se podia ver. Eu não conseguia mais sentir a presença do meu querido amigo. Não ouvia nem sua respiração. Apenas escutava o estranho som animalesco.
Surge novamente aqueles terríveis olhos penetrantes, que quando fitavam com os meus, me deixava com uma estranha sensação, uma espécie de tontura, como se eu tivesse sendo tragado por uma força descomunal, algo além dos limites humanos.
Cessa o grunhido e um estranho sussurro é emanado da direção daquele estranho rubro. Algo que apenas o meu inconsciente entendera de certa forma naquele momento e então eu desfaleço.
Quando eu acordo, não sei exatamente quanto tempo depois, percebo que estava deitado em minha cama e que minhas mãos foram algemadas.Vários policiais circulavam pelos aposentos de minha moradia. Lembrei do meu amigo, então levantei com um pulo e corri em direção à sala.
Chegando na sala sinto um terrível calafrio ao ter minha vista ofuscada por um forte vermelho. Desta vez, o vermelho do sangue. O sofá em que o corpo do meu amigo jazia estava rubro, assim como algumas manchas de mão na parede ao lado do sofá. Seu rosto estava totalmente desfigurado. A cartilagem do nariz fora toda arrancada e um dos olhos estava um pouco mais acima de onde normalmente ficava. Seu pescoço estava retalhado e seus dedos da mão esquerda, que era a única que eu conseguia ver, estavam cortados pela metade. Provavelmente ele tinha morrido de hemorragia, pois sua cor estava bem azulada. Foi terrível presenciar aquilo, principalmente por saber que eu era o único suspeito daquele crime hediondo.
Marcas das minhas digitais foram encontradas por todo o corpo dele e também na faca de cozinha que fora encontrada ao meu lado. A polícia não tinha dúvidas de que eu era o assassino e eu não tinha como recorrer, portanto desde de então estou encarcerado nessa maldita cela.
Ainda hoje tenho pesadelos. Pesadelos muito estranhos. Alguns em formas de sons. Terríveis ruídos. Aquele maldito sussurro! Droga, ele não sai da minha cabeça, dos meus sonhos. Maldita palavra! Palavra de persuasão! Palavra tentadora!
Aquela voz que apenas meu inconsciente tinha entendido naquele dia e que agora me assombra em meus pesadelos, queria dizer apenas uma simples palavra: “Mate-o”.


Por Igor Chagas 19/03/04