Srom – Lygia Fagundes Telles

ELA foi o jardineiro surdo-mudo que encontrei certa manhã podando a grama do jardim do meu avô. Quando a lâmina recurva afundou mais, traçando um semicírculo, senti seu hálito de terra e me afastei depressa. Foi depois a mariposa de prata com um olho azul-turquesa desenhado em cada asa, entrou no meu quarto, voejou pesadamente em redor da lâmpada e saiu para a noite. Encontrei-a bem mais tarde na flor…

A disciplina do amor – Lygia Fagundes Telles

Foi na França, durante a Segunda Grande guerra: um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e na maior alegria acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta à casa. A vila inteira já conhcecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas…

Geléia de maçã – Lygia Fagundes Telles

QUANDO SUBI NO NOTURNO, o chefe veio me avisar que minha companheira de cabine, uma senhora muito distinta, ficaria com o leito inferior, isso se eu não fizesse questão. Não fiz questão. Quando voltei do carro-restaurante, a velha senhora já estava recostada nos travesseiros, comendo biscoitos com geléia. Usava uma camisola de flanela com florinhas azuis, os olhos também azuis – só faltava a touca de rendinhas para compor a…

A mão no ombro – Lygia Fagundes Telles

O homem estranhou aquele céu verde-cinza com a lua de cera coroada por um fino galho de árvore, as folhas se desenhando nas minúcias sobre o fundo opaco. Era uma lua ou um sol apagado? Difícil saber se estava anoitecendo ou se já era manhã no jardim que tinha a luminosidade fosca de uma antiga moeda de cobre. Estranhou o perfume úmido de ervas. E o silêncio cristalizado como num…

Venha ver o pôr do sol – Lygia Fagundes Telles

ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.

A caçada – Lygia Fagundes Telles

A loja de antigüidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus panos embolorados e livros comidos de traça. Com as pontas dos dedos, o homem tocou numa pilha de quadros. Uma mariposa levantou vôo e foi chocar-se contra uma imagem de mãos decepadas.– Bonita imagem- disse ele.A velha tirou um grampo do coque e limpou a unha do polegar. – É um São Francisco.

Lygia Fagundes Telles

Biografia da escritora brasileira Lygia Fagundes Telles, autora de romances como As meninas e Ciranda de Pedra, além de várias coletâneas de contos, entre os mais famosos estão A Caçada, Venha Ver o Pôr do Sol e Antes do Baile Verde