A partida do trem – Clarice Lispector

A partida era na Central com seu relógio enorme, o maior do mundo. Marcava seis horas da manhã. Ângela Pralini pagou o táxi e pegou sua pequena valise. Dona Maria Rita Alvarenga Chagas Souza Melo desceu do Opala da filha e encaminharam-se para os trilhos. A velha bem vestida e com jóias. Das rugas que a disfarçavam saía a forma pura de um nariz perdido na idade, e de uma…

Toda a minha vida gaguejei – Alberto Morávia

Saio de casa, olhando à direita e à esquerda, para ver se “ele” está lá. Moro numa rua das que se chamam particulares, ou melhor dizendo, sem saída, e ao longo da qual se rasgam, diante uns dos outros, os jardins de três ou quatro mansões. Vejo apenas um par de automóveis estacionados junto ao passeio e são automóveis de luxo, como de luxo é o bairro todo. “Ele”, pelo…

Em sonhos ouço sempre passos na escada – Alberto Morávia

Como tanta gente, tenho o costume de dormir depois do almoço. Já que como e bebo muito, adormeço facilmente. Durmo no meu estúdio, uma magnífica mansarda através de cujas vidraças se rasga uma vista de conjunto sobre a cidade. Mal desperto, salto do divã e faço um café muito forte; depois, sem perder um minuto, ponho‑me à mesa de trabalho, diante da máquina de escrever. Profissionalmente, sou argumentista de cinema;…

Um trovão revelador – Alberto Morávia

Havia cinco dias que eu fugia em ziguezague, para confundir as minhas próprias pegadas, de Paris a Amsterdão, de Amsterdão a Londres, de Londres a Hamburgo, de Hamburgo a Marselha, de Marselha a Viena, de Viena a Roma, ora de comboio, ora de avião sem dormir ou dormindo pouco e incomodamente; tinha já mais vontade de dormir que de viver, e julgo que teria adormecido até perante esse mesmo pelotão…

O passeio do espectador – Alberto Morávia

A chave gira na fechadura da maneira violenta com que gira uma chave quando quer exprimir repugnância e rejeição. E, com efeito, logo a seguir, para desfazer todos os equívocos, a voz da sua mulher, do outro lado da porta, grita‑lhe muito explicitamente que não quer voltar a fazer amor com ele, nem hoje nem amanhã nem nunca mais. Já lhe gritou outras vezes durante este primeiro ano de casados;…

As mãos no pescoço – Alberto Morávia

A sua mulher lhe diz: Segura‑me no pescoço com as duas mãos. Não é estranho? Um homem grande e atlético como você, com umas mãos tão pequenas? Vai aperta, até me dares a volta ao pescoço com os dedos. Não tenhas medo de me machucar, quero ver se consegues dar‑me a volta ao pescoço com as tuas mãos.

Uma mulher na casa do guarda alfandegário – Alberto Morávia

Sou um homem de ordem, não só psicológica, mas profissionalmente também: presto serviço como guarda alfandegário no aeroporto. Como todos os homens de ordem, todavia, gosto de, por vezes, esquecer a ordem e deixar passar a mercadoria de contrabando da imaginação. O sábado e o domingo dedico‑os, justamente, às minhas fantasias. Tiro o uniforme, estendo‑me na cama e fixo o pensamento em qualquer coisa que recentemente me tenha impressionado de…

A disciplina do amor – Lygia Fagundes Telles

Foi na França, durante a Segunda Grande guerra: um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e na maior alegria acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta à casa. A vila inteira já conhcecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas…

Geléia de maçã – Lygia Fagundes Telles

QUANDO SUBI NO NOTURNO, o chefe veio me avisar que minha companheira de cabine, uma senhora muito distinta, ficaria com o leito inferior, isso se eu não fizesse questão. Não fiz questão. Quando voltei do carro-restaurante, a velha senhora já estava recostada nos travesseiros, comendo biscoitos com geléia. Usava uma camisola de flanela com florinhas azuis, os olhos também azuis – só faltava a touca de rendinhas para compor a…

A menina dos fósforos – Hans Christian Andersen

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre menina seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns…