Amiens“Idade média, és a minha escura subjacência”. Clarice Lispector


A maioria das pessoas quando houve a palavra “gótico”, lembra logo das grandes e célebres catedrais medievais, como Chartres, Reims e Notre-Dame de Paris. Mas será que isso teria alguma coisa a ver com as bandas européias de gothic rock como Siouxsie & The Banshees, Sisters of Mercy ou Bauhaus? Ao citarmos esta última em particular aí é que a coisa complica, afinal Bauhaus não era também uma escola de arquitetura criada em 1919 e fechada depois pelos nazistas?

Para encontrar respostas a estas perguntas é preciso fazer como aquele psicótico assassino esquartejador…ou seja, vamos por partes.

Chartres
Como já discutimos em outro tópico sobre a origem do termo gótico, existe sim uma relação com a arte gótica da Idade Média, mas filtrada pela reconstituição cultural que os românticos fizeram incorporando elementos da arte medieval em suas obras, como forma de contestar o classismo e seu apego a antiguidade clássica e ao racionalismo.No romantismo ao contrário havia um retorno idealizado em relação ao mistico e ao imaginário medievais (elementos presentes também na arte barroca). E não há ícone melhor da Idade Média que a catedral gótica.

Neste sentido duas obras românticas são fundamentais:”Notre-Dame de Paris” de Vitor Hugo, e o “Castelo de Otranto” de Walpole.

Na obra de Vitor Hugo, a catedral torna-se o centro de toda a ação. O autor busca no passado histórico o rompimento com a estética clássica, elegendo o feio seu ideal de beleza, fazendo do disforme Quasímodo, o heroi da história. Hugo considera ainda em seu romance a arte gótica como a verdadeira arte popular. Quanto a Walpole, é curioso notar que a idéia do romance se originou de um sonho, e que isso posteriormente levou Walpole a construir um castelo gótico, o que acabou se tornando comum a época, em que vários “dândis” torraram fortunas na construção de castelos góticos medievais em pleno século XVIII.

Castelo de Edward I (inglaterra)

O castelo medieval era ainda o cenário previlegiado do “roman noir”, com seus calabouços, masmorras, fossos, imensas salas, corredores sombrios e passagens secretas. É no castelo, em noites de tempestades e lua cheia que se dá o clímax das “gothic novels”, como ficou conhecido o gênero.

São resgatadas do cenário medieval personagens do imaginário cristão e popular, como o vampiro e também Satã.

Drácula

O Drácula de Bran Stocker não é nada mais que o lendário conde Vlad Teps da Transilvânia que segundo consta teria vivido no século XVI, e que tanto deliciou a imaginação dos românticos do século XIX.

Quanto a Satã, Goethe traduziu-o na figura de Mefistófeles, uma das personagens mais marcantes da literatura mundial.

Todos os elementos estéticos, muitas vezes grotescos, que se encontram no “roman noir” ou no “gothic novel”, tem no castelo e na catedral góticos a sua melhor inspiração e representação. E não é nenhum mistério que daí tenha saído a inspiração para 09 entre 10 bandas de gothic rock.