R.E.M

Essa é a história que se conta: há mais de 25 anos nascia em Athens, Georgia, uma das mais importantes bandas dos últimos 30 anos. Formado por quatro jovens, entre eles um aficcionado por anos 60 (Peter Buck) e um rapaz extremamente tímido (Michael Stipe), o R.E.M. tornou-se um dos mais importantes e idolatrados grupos da história. E essa lenda começou a ser forjada com o lançamento do primeiro EP dos rapazes, Chronic Town. Se você quer saber se esse trabalho é tão bom dou uma dica aos mais jovens: Chronic Town é simplesmente o disco que fez Thom Yorke sonhar em ser músico, o que significa dizer que sem “Gardening at Night” não haveria “Creep” e nem o Radiohead…


Por Rubens Leme da Costa

Michael Stipe, Mike Mills, Bill Berry e Peter Buck, em 1983Eles são ainda hoje a mais importante banda de rock da América, ainda que tenham se aventurado um pouco com a música eletrônica nos últimos discos, o que provocou uma certa decepção de seus mais ardorosos fãs. Mas o R.E.M. é conhecido pela sua coerência, simpatia e pela incrível capacidade criar canções absolutamente pessoais e clássicas.

Mais: o R.E.M. possui uma história bem interessante e que foi construída com detalhes curiosos, como a famosa igreja em que viveram durante um tempo com uma amiga e que foi palco da primeira apresentação do grupo, em meio a uma imensa balbúrdia entre os espectadores, mais preocupados em procurar drogas do que conhecer as bandas que lá tocavam. Mas vamos por partes. Antes é preciso saber como eles travaram conhecimento um do outro.

Peter Lawrence Buck era um jovem que amava música, tinha uma guitarra e tinha rodado o país de carona, quando resolveu trabalhar em uma loja de discos chamada Wuxtry, em Athens, no estado da Georgia. Foi lá, nessa época (1978), que começou a reparar em um freguês estranho, que o impressionou ao entrar abraçados com duas garotas: Michael Stipe. “Ele pensava que eram minhas namoradas, mas eram minhas irmãs”, lembra o vocalista.

John Michael Stipe era considerado um jovem extremamente tímido e misterioso. Parte disso se deve à sua vida nômade (havia morado em vários estados dos Estados Unidos e na Alemanha, sempre com sua família) e tinha em suas irmãs Lydia e Cyndy, suas melhores amigas.

Mas Michael não vivia em Athens, e sim em Watkinsville, mas com o pretexto de estudar Artes na Universidade da Georgia, acabou se mudando para Athens, uma cidade tipicamente de universitários. Logo Michael e Peter começaram a estabelecer uma amizade, e ficaram surpresos ao descobrirem que gostavam de várias coisas em comum, especialmente Patti Smith.

Como Stipe não se achava tão talentoso para seguir carreira no meio artísitico e Peter não desejava ficar atrás de um balcão de loja por muito tempo, resolveram montar uma banda. Só não sabiam como.

Tudo começou a se clarear quando apareceu uma dupla formada por Mike Mills e Bill Berry. Michael Edward Mills vinha de uma família com um histórico no meio musical – seu pai era tenor e sua mãe tocava piano e guitarra. Mills era o típico rapaz “nerd”: era bom aluno, sério, aplicado e tinha medo de drogas ou confusão.

Já William Thomas Berry era exatamente o oposto disso: falante, articulado, adorava líquidos “intoxicantes” e desde cedo queria viver de música. Os dois acabaram se conhecendo no colegial e como tinham a mesma idade (ambos haviam nascido em 1958), logo ficaram amigos.

Apesar de Bill não gostar muito de Mike no começo, os dois resolveram que deviam se arriscar. Berry já tocava bateria e Mills, baixo e ambos fizeram parte do Shadowfax e Back Door Band.

Quando se formaram no colegial, resolveram viver juntos, alugando um apartamento em Maicon. Mas como os tempos eram bicudos, Mills foi trabalhar na cadeia de loja da Sears e Bill na agência de artistas Paragon, onde estabeleceu alguns contatos que seriam úteis em um futuro próximo.

As esperanças se renovaram em 1977, quando Berry conheceu dois irmãos que tinham vindo da Inglaterra para promover as emergentes bandas punks. Esses irmãos eram nada menos que Miles e Ian Copeland, irmãos de um baterista talentoso chamado Stewart Copeland, fundandor de um promissor grupo chamado The Police. No futuro, Miles montaria um selo – I.R.S. -, responsável pelos primeiros lançamentos do R.E.M.

Mas não havia ainda I.R.S. e Ian acabou ficando frustrado com a missão na conservadora América. A saída foi formar uma banda com Bill e Mike, The Frustration. Como não deu em nada, Bill Berry resolveu que seguiria sua vida como advogado do meio artístico e foi estudar direito em Athens e Mike foi junto, em 1979.

Enquanto isso, Stipe e Peter Buck já eram parceiros e viviam juntos em uma igreja na rua Oconne. Michael gastava boa parte do tempo escrevendo e tentando convencer Peter a ser guitarrista. Os dois viviam com uma garota chamada Kathleen O’Brien, amiga de Michael e que teria um papel fundamental na formação do R.E.M., por vários motivos.

O primeiro é que ela era amiga dos integrantes do Wuoggerz, cujo baterista era ninguém menos que Bill Berry. Quando Michael Stipe conheceu Bill Berry, pouco ligou para suas habilidades como baterista, mas ficou fascinado pelas grossas sobrancelhas dele. E assim, Bill fazia parte da gangue.

Kathleen O'BrienMas ainda faltava um baixista, solução facilmente encontrada quando Bill apresentou Mike Mills aos demais. Só que o primeiro encontro foi um desastre, pois Mills estava completamente bêbado e Stipe não o queria na banda de maneira alguma.

No entanto, os quatro ficaram amigos e foram todos viver na igreja e começaram a escrever as primeiras canções. A vida dos garotos era então movida a ensaios e festas dentro do local, onde enchiam a cara, tomavam drogas e conheciam pessoas.

A virada aconteceu quando Kathleen O’Brien resolveu fazer uma grande recepção na igreja, no dia 5 de abril de 1980, quando comemorava seu aniversário. Kathleen resolveu convidar duas bandas locais para tocarem no dia: The Side Effects e o jovem quarteto que se apresentou naquele dia como Twisted Kites (embora algumas biografias digam que o quarteto não tinha nome algum e que também na festa havia tocado o Men In Tree).

Nessa época, os quatro já tinha composto 12 músicas. O grupo dividiu a apresentação em dois sets e essas são (provavelmente) as canções apresentadas: Primeiro Set: – “I Can’t Control Myself / God Save The Queen / Narrator / Just A Touch / Baby I / Action / Needles And Pins / Hippy Hippy Shake / There She Goes Again / All The Right Friends / Shakin’ All Over / Secret Agent Man / A Girl Like You / Permanent Vacation / I Can Only Give You Everything / Dangerous Times / Different Girl / Mystery To Me / (I’m Not Your) Steppin’ Stone / Lisa Says / Nervous Breakdown / Schéhérazade”. Segundo set: – “Honky Tonk Women / One Nation Under A Groove / Roadrunner / California Sun / Gloria”.

Rodger Lyle Brown, autor do livro Party Out of Bonds, que conta a cena local naqueles tempos, esteve na festa e relembra alguns detalhes: “eu me lembro que Kath quis realmente fazer algo especial naquela noite. Ela lavou toda a igreja, organizou tudo, chamou bandas e fez enormes anúncios. Foram centenas de pessoas, mas não, obviamente todas que juram. Obviamente ninguém fazia idéia de como aquela noite seria importante para o rock, porque todos só queriam beber, tomar drogas e namorar. Ninguém foi lá para ver banda alguma, entende?”

Na época, a grande banda local era nada menos do que o The B-52’s, que havia lançado o disco de estréia em 1979 e era a febre local. O nome do livro é tirado justamente de uma canção desse disco.

Embora bastante crus, os quatro começaram a construir a personalidade sonora: em primeiro plano entravam as guitarras dos anos 60 de Peter com Michael Stipe cantando, em voz baixa, quase miando, algumas das mais estranhas e impenetráveis letras já escritas.

a banda na Carolina do Note, em 1980A banda começou a encarar a vida com seriedade em julho de 1980, quando Jefferson Holt marcou um concerto na Carolina do Norte para o Pylon. Como eles não puderam comparecer, Holt acabou convidado o quarteto, já então batizado de R.E.M. (uma abreviação de “Rapid Eyes Movement”, um dos estágios do sono). Como já havia uma banda também com esse nome, rapidamente resolveram registrar o nome.

A estrada acabaria sendo a nova casa da banda nos próximos dois anos. Sempre a bordo de um velho dodge verde, os integrantes se apresentavam em todos os locais disponíveis.

capa do compacto Radio Free Europecontra-capa do compacto Radio Free Europe

Em 1981, o grupo acabaria voltando para a Carolina, mas para encontrar Mitch Easter, produtor e líder do grupo Let’s Active, dono de um estúdio, onde gravaram uma demo que continha a canção “Radio Free Europe”. A canção foi lançada pela Hibbert, propriedade de Johnny Hibbert, e que havia acabado de montar seu selo.

Apesar dos problemas na mixagem do compacto, Radio Free Europe conseguiu vender mais de mil cópias e o semanário Village Voice elogiou a canção como “um raro exemplo de punk rock feito na América.”

O compacto deu mais confiança ao grupo. A banda então se separou de Hibbert, formando uma parceria com Bertis Down, um jovem advogado, que trabalharia no começo sem dinheiro, mas que acabou criando uma companhia – R.E.M./Athens Ltd. – no qual é o responsável até hoje.

O grupo começou a procurar uma gravadora e foi aí que reencontraram Ian Copeland, que havia ouvido e gostado do compacto de estréia, diferente do seu irmão Miles, chefe da I.R.S., que não ficou tão impressionado. Mas Miles pediu que seu assistente Jay Boberg procurasse Mitch Easter para saber se haviam feito outras gravações. Quando ouviram, rapidamente assinaram com o grupo. No dia 31 de maio de 1982, o R.E.M. entrava para o selo.

capa de Chronic Towncontra-capa capa de Chronic Town

Utilizando cinco canções gravadas com Mitch Easter, no Drive In Studio, em outubro de 1981, o R.E.M. lança o EP Chronic Town, uma das mais belas estréias de uma banda iniciante.

clip de Wolves, LowerO disco trazia cinco canções – “Wolves, Lower”; “Gardening At Night”; “Carnival Of Sorts (Box Cars)”; “1,000,000” e “Stumble”, mostrava uma banda iniciante talentosa, misturando ecos de anos 60 com a simplicidade do punk.

Utlizando um gárgula da catedral de Notre Dame de Paris, como foto principal, o R.E.M. mostrava uma grande força melódica. O EP seria tocado exaustivamente nas college radios e o grupo acabaria criando um culto e um clip de “Wolves, Lower” seria gravado.

Apenas uma curiosidade: Chronic Town foi lançado em CD, mas como bônus do disco Dead Letter Office, de 1987. Apesar do nome não constar na capa, lá estão o encarte completo – capa, contra-capa e ficha técnica – e as músicas são as cinco últimas – exatamente da número 16 até 20. Por isso, se puder importar esse disco, saiba que estará levando dois por um. Resumindo: imperdível!

Esse seria o primeiro passo para uma carreira de sucesso. Com uma forte presença de palco (a despeito da timidez de Stipe), um ótimo repertório de covers e muito talento para escrever novas canções, o R.E.M. iria formando lenta, mas progressivamente, uma carreira que faria deles o principal nome da América nos anos 80. O seguimento dessa brilhante carreira é papo para outro dia. Fiquem com a discografia da banda. Um abraço e até a próxima coluna.

Discografia

Chronic Town (1982)
Murmur (1983)
Reckoning (1984)
Fables of Reconstruction (1985)
Lifes Rich Pageant (1986)
Dead Letter Office (1987)
Document (1987)
Eponymous (1988)
Green (1989)
Out Of Time (1991)
Automatic for the People (1992)
Monster (1994)
The Automatic Box (1995)
New Adventures in Hi-Fi (1996)
In the Attic: Alternative Recordings 1985-1989 (1997)
The Best of R.E.M. (1998)
Up (1998)
Reveal (2001)
In Time: The Best of R.E.M. 1988-2003 (2003)
Around the Sun (2004)