Kraftwerk

Biografia – Segunda parte: 1991 a 2005:

capa do disco The MixE o Kraftwerk deu as caras em 1991 após um longo exílio com o disco The Mix. The Mix surpreendeu por ser um disco de remixes. Estaria o Kraftwerk dando um passo para trás em uma carreira pontuada pela ousadia e pelo olhar no futuro? Não para Ralf Hütter.

“Estávamos trabalhando nas faixas para a execução ao vivo, gerando sons digitais e sampleando nossas velhas fitas. Por isso, não são remixes, mas regravações completamente novas.” Ralf explicou também que deixaram alguns clássicos de fora para usarem apenas faixas que combinavam. “Tivemos que sacrificar algumas faixas em nome de uma unidade.”

Ele alegou que não colocaram nenhuma faixa dos três primeiros discos porque não tocavam mais esse material desde os anos de Autobahn.

Uma das primeiras diferenças presentes no novo trabalho era a ausência dos percussionistas Karl Bartos e Wolfgang Flür. Bartos havia deixado o Kraftwerk em 1987 criticando os métodos de Ralf e Florian, o que aumentava os boatos de que os dois exerciam uma tirania interna. Flür acabou saindo do Kraftwerk em 1990, antes de cinco concertos programados para a Itália. Nesses concertos, Wolfgang acabou sendo substituído por Fritz Hilpert. Sobre a mudança, Ralf explicou: “agora temos um engenheiro eletrônico ao invés dos dois antigos percussionistas e temos mais eletrônica, mais programação e mais engenharia de som.”

Flür deu sua própria versão sobre sua saída da banda: “o Kraftwerk era um grupo que se concentrava apenas em si mesmo. No início dos anos 80, quase ninguém podia avançar neste universo. Existia uma lei interna que pregava a imobilidade e isso matou nossa inspiração. Karl e eu queríamos participar mais da criação musical. Deveríamos ter efetuado mais intercâmbios com outros músicos. Além disso, Ralf e Florian passam mais tempo preocupados com ciclismo do que com a música.

Wolfgang explica que o desgaste já vinha há vários anos: “o auge de toda a tensão foi durante a excursão de Computer World. Naquela viagem pudemos notar nossos limites pela primeira vez. Após a partida de Emil Schult, que era uma espécie de pai para o grupo (acompanhava Kraftwerk nas viagens desde 1975), um elemento chave ficou faltando. E com o controle cada vez mais autoritário de Ralf e Florian eu não vi outra alternativa, a não ser deixar o Kraftwerk.”

Henning SchmitzNa excursão de The Mix, o Kraftwerk excursionou e tocou com Hilpert e com o português Fernando Abrantes, que depois foi trocado por Henning Schmitz, embora o robô de Abrantes continuasse aparecendo nas turnês. Sobre isso, Ralf disse: “é muito mais fácil trocar um membro do que um robô!”

Hütter, aliás, explicou que ele nunca se viu como um ser humano e sim como um autômato: “em alemãp, os sobrenomes são frequentemente de profissões, como Müller (mecânico) e Bauer (fazendeiro). Eu não me sinto como Sr. Hütter, ou mais precisamente como Sr. Kraftwerk. Eu me sinto como um robô.”

Hütter afirmou que nunca ligou muito para o aspecto humano dentro do grupo, apenas para o aspecto profissional: “alguns dizem que produzimos pouco, mas a verdade é que trabalhamos duro todos os dias. Nós digitalizamos completamente nossas músicas antigas, elas estão todas salvas em disco rígido. É o nosso arquivo sonoro. Ele nos fará permanecer. Além dos mais, acho bela a solidão. O silêncio é importante para o ser humano, porque somos constantemente incomodados pelo ruído da música. É por isso que exijo dias de silêncio total.”

Esse tipo de pensamento fez com que alguns rotulassem o grupo de fascistas e de estabelecerem uma verdade extremamente cruel com o mundo: “é bobagem essa coisa de nos chamarem de fascistas. Apenas temos uma maneira de trabalhar, que pode ser dura para outras pessoas. Mas o nosso tipo de som exige uma postura totalmente diferente. E o fato de nos confraternizarmos pouco com nossos fãs é mentira. Gostamos de conversar com as pessoas”, afirmou Ralf.

Mas Ralf disse que apesar de todas as críticas, o grupo sempre esteve interessado pelos problemas cotidianos: “a tecnologia hoje está mais próxima do que sempre sonhamos. As limitações estão diminuindo e nossa música é cada vez mais espalhada pelo planeta. Eu adoro sair para dançar e ouvir essas novas bandas usando idéias que tivemos. Ao mesmo tempo, tento reduzir os estímulos externos. Não ouço música, faço música no estúdio e quando saio de casa gosto de ouvir os sons que o ambiente oferece.”

A excursão de The Mix coincidiu com o começo da reunificação alemã após o final da União Soviética e Ralf disse que ficou frustrado com a falta de estímulo das pessoas após o ocorrido: “eu não sei porque está tudo tão modorrento, já que era para estar acontecendo uma avalanche de idéias, seja na música, na literatura ou no cinema. Mas nada aconteceu.”

Uma das coisas que mais preocupavam o líder do Kraftwerk era a massificação humana: “não há muita personalidade hoje e não acho que o mundo seguirá um grande líder como aconteceu antes. Agora o movimento se dá através de uma ditadura de massas, do controle remoto. Não vejo sentido em eleições porque votar não significa estar escolhendo algo de qualidade.”

A excursão promocional de The Mix levou anos para terminar e algumas apresentações ficaram na história, como a de junho de 1992, em Manchester, em um concerto contra as armas nucleares. Após o sucesso retumbante e a aclamação geral, o grupo voltou a hibernar longamente.

capa da caixa The Capitol YearsEm 1994, duas coletâneas foram lançadas: The Capitol Years, uma caixa pelo selo californiano Cleopatra, reunindo The Man-Machine, Radio-Activity e Trans-Europe Express, trazendo um libreto, um adesivo e um pôster e The Model: Best Of Kraftwerk.

A banda ainda realizou alguns shows nos anos de 1997 e 1998, sendo três no primeiro no ano e 14 no segundo, incluindo as duas primeiras apresentações em solo brasileiro, nos dias 16 de outubro de 1998, no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, e no 17 de outubro, no Jockey Club de São Paulo.


Visualmente, a banda soava mais espetacular do que nunca, utlizando cada vez mais recursos visuais e tornando seu espetáculo único.

Mas o grupo só voltaria a dar as caras com um novo projeto em dezembro de 1999 e ainda assim feito por encomenda: o EP Expo 2000. Seria o primeiro disco de música inédita em 14 anos.

capa do EP Expo 2000Expo 2000 era o nome de uma feira mundial que aconteceu em Hannover, na Alemanha. Por um EP com quatro músicas, o grupo recebeu um polpudo cheque de 400 mil marcos dos organizadores, o que causou uma grande reclamação no país. As primeiras 5 mil cópias traziam uma capa holográfica.

Além da questão financeira, alguns criticaram o fato do Kraftwerk estar soando exatamente o mesmo há 20 anos. Sobre isso, Ralf comentou: “Nós criamos novos trabalhos, eles são como modelos mentais.”

Florian ao vivo com o KraftwerkExpo 2000 não teve nenhum show para a divulgação, mas apesar disso a banda realizou sete apresentações no ano de 2002, entre os meses de setembro e dezembro pela Europa – Bélgica, França, Luxemburgo e dois no Japão. A curiosidade é que em um único dia – 26 de setembro – a banda deu três shows – dois em Paris e um em Luxemburgo.

Durante essas apresentações, especulava-se que o grupo iria lançar em breve um novo disco. Ralf confirmou que existia, de fato, um projeto, mas se recusava a dizer qual: “nós trabalhamos todos os dias e algo sairá brevemente, mas ainda não posso dizer sobre o que será.”

capa do disco Tour de France SoundtracksO ano de 2003 começou com uma série de oito shows entre os dias 17 de janeiro e 2 de fevereiro, na Nova Zelândia e na Austrália. E no mesmo ano, o grupo surpreende lançando Tour de France Soundtracks. Mais do que regravar o antigo e clássico EP sobre a Volta da França, o grupo fez novos temas. O disco faria parte das comemorações do 100 anos da prova. Porém, o grupo acabou atrasando o organograma e disponibilizaram apenas a última faixa do trabalho para a prova.

Ralf relata mais uma vez que era grande amante da prova e que todos os anos participa, ao menos, das etapas montanhosas. Segundo ele, “se correr sem pressa, não exige um grande esforço. Para o nosso álbum nós gravamos o ruído de bicicletas e da respiração humana. Esta sensação de “flutuação” é conhecida como “estar correndo na bicicleta sem a corrente”, assim como um concerto com música tocando de forma automática.”

O líder do Kraftwerk conta que o projeto foi adiado por décadas: “em 1983 nós já tínhamos o conceito para o álbum Tour de France. Ele só acabou se tornando um single porque nós começamos a trabalhar no álbum Technopop, que acabou se tornando o Electric Café. Depois disso nós digitalizamos todas as nossas gravações. No último outono nós nos apresentamos no Cité de la Musique em Paris com laptops pela primeira vez. Agora nós temos mais mobilidade com nosso estúdio.”

Ralf também explica que uma das grandes diferenças foi o “emagrecimento” do estúdio da banda, Kling Klang: “o Kling Klang costumava pesar várias toneladas. Em 1998 nós viajamos com ele através do mundo. Agora nós o reduzimos a uma plataforma digital. Praticamente podemos carregar nosso estúdio como uma bagagem de mão. E funciona muito bem em diferentes climas. Nós nos apresentamos no Japão a baixas temperaturas e também no calor da Austrália. Foi fantástico.”

Sobre o ritmo lento de produção do grupo, mais uma vez ressaltou que trabalham totalmente sozinhos e criticou novamente Wolfgang Flür, que acusou a banda de estar mais preocupado com o ciclismo do que com a música: “ele era apenas um dos percussionistas que nós empregamos para concertos e gravações. Sua afirmação está errada. Ele não pode julgar o ciclismo porque ele nunca o praticou.”

Após um ano do lançamento do disco, a banda saiu novamente em excursão pelo mundo, fazendo 69 apresentações no ano de 2004, onde passaram, mais uma vez pelo Brasil, em três shows no mês de novembro: nos dias 5 e 6 tocaram no TIM Festival, em São Paulo e no Rio de Janeiro e no dia 8, em Brasília.

Minimum-MaximumEsses concertos acabaram rendendo o novo disco do grupo, gravado ao vivo: Minimum-Maximum. Um álbum duplo que mostra, pela primeira vez, seus clássicos, ao vivo, músicas que eram consumidas avidamente em centenas de discos piratas.

O ritmo do grupo para esse ano segue sendo as apresentações, e eles as têm agendadas até setembro de 2005, encerrando uma excursão mundial, na Irlanda.

Os demais membros dos grupo lançaram discos solos ou em outros projetos, sem conseguirem o impacto do Kraftwerk. É impossível saber o que eles farão ou por quanto tempo voltarão a ficar no Kling Klang até saírem com algo novo. Deixo vocês com a discografia do grupo. Um abraço e até a próxima coluna.

Discografia

Kraftwerk (1971)
Kraftwerk 2 (1972)
Ralf and Florian (1973)
Autobahn (1974)
Radio-Activity (1975)
Exceller 8 (1975)
Trans-Europe Express (1977)
The Man-Machine (1978)
Computer World (1981)
Tour de France (1983)
Electric Café (1986)
The Mix (1991)
The Capitol Years (1994)
The Model: Best Of Kraftwerk (1994)
Expo 2000 (1999)
Tour de France Soundtracks (2003)
Minimum-Maximum (2005)

Discografia

Kraftwerk (1971)
Kraftwerk 2 (1972)
Ralf and Florian (1973)
Autobahn (1974)
Radio-Activity (1975)
Exceller 8 (1975)
Trans-Europe Express (1977)
The Man-Machine (1978)
Computer World (1981)
Tour de France (1983)
Electric Café (1986)
The Mix (1991)
The Capitol Years (1994)
The Model: Best Of Kraftwerk (1994)
Expo 2000 (1999)
Tour de France Soundtracks (2003)
Minimum-Maximum (2005)

2 comments

  1. O Kraftwerk estava a frente do seu tempo,sou roqueiro de raiz,mas é impossivel nao se apaixonar pelo som dos caras.Acho sim meio fria a forma do Ralf Huter falar do ex Kraftwerk Wolgang Flur ao comentar”ele era apenas um empregado”,

  2. Olá. Minha maior dúvida sobre Kraftwerk é com relação ao idioma cantado por eles: afinal, existe a "discografia cantada em alemão"? os que eu tenho são inglês, então posso considerar que tenho os discos do Kraftwerk? abraços.

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