As confissões da filha de Ariadne

As confissões da filha de Ariadne

Beatrix aproveitou a escolta que oferecera para a princesa para também se confessar, uma vez que em Chaves já havia um padre ordenado atendendo como confessor há alguns dias.

Fazia muito tempo que ela não se confessava, por conta da ausência de párocos em Braga, desde que se mudara não tinham pároco, nem missa. Em breve felizmente, isso acabaria, e a Dama Abigayl assumiria a função. No entanto, como isso ainda demoraria um pouco, ela pensou que não faria mal aproveitar a viagem para já buscar o rito da confissão.

Naquela tarde padre Nicollielo estava atendendo. Ela chegou à igreja de Chaves, trajando um vestido cinza chumbo, sobre a cabeça e os ombros estava um véu missal escuro, de uso para confissão. Ela foi até o altar, ajoelhou-se e fez o sinal de Christos. Depois disso foi até a caixinha da igreja e depositou um donativo. Só então, foi até o confessionário.

Ela entrou, ajoelhou-se e beijou a ponta da estola sacerdotal do confessor.

– Padre, faz muito tempo que fiz minha última confissão. Nem me lembro mais… – Ela disse e parou. Por onde começaria afinal?

No minúsculo espaço, o Padre ficou esperando por alguém e no silêncio da Paróquia ele pode ouvir o movimento de alguém adentrar, talvez fosse apenas para fazer uma oração, mas logo a pessoa se aproxima do confessionário e se ajoelha. Era a sua amiga, a Baronesa do Paço da Figueira, Nicollielo não queria ser o amigo agora, seu dever era apenas trata-la como uma fiel em busca do perdão de seus pecados.

– Filha, seja sincera de todo coração e me conte tudo àquilo que te pesa a consciência, irei ser o ouvido de Christos e se ele assim desejar, irá te perdoar por teus erros após uma penitência. 

Beatrix estava um pouco nervosa, ainda que na superfície parecesse muito calma. Aquele tom de voz “profissional” que o padre Nicollielo adotara pareceu deixá-la mais tranquila. Ela procurou imaginá-lo apenas como o seu confessor. Naquelas circunstâncias ele a ouviria apenas como um sacerdote, o que ela contaria em confissão.

– Posso contar com o vosso sigilo sacerdotal, obviamente. – Ela disse, como para se certificar da segurança e da inviolabilidade do confessionário. Seria impossível abrir-se de outra maneira.

Era normal uma pessoa ficar nervosa durante uma confissão, elas estavam ali porque por algum momento em sua vida, fizeram algo errado da qual realmente deviam sentir-se envergonhado, porém o confessor devia cumprir com sua promessa de nunca quebrar o sigilo das confissões.

– Sem dúvidas de que podes! Tudo o que disseres, jamais será contado a alguém por mim, fique tranquila, respire calmamente e da forma que quiseres e quando quiseres, podes começar.

Assim, diante daquelas palavras, ali, ajoelhada no seu lado do confessionário de madeira antigo, a baronesa suspirou profundamente, não se sabia se era um suspiro de alívio ou se ela apenas tentava tomar o fôlego necessário antes de prosseguir seu relato.

Ela ainda silenciou por alguns segundos. Então, apoiou a mão perto da treliça de madeira que dividia os espaços do confessionário e através da qual se vislumbrava a figura do confessor. Beatrix mordeu os lábios um instante, como se ainda hesitasse.

Por fim, próximo à grade de madeira, ela começou a mover os lábios e deles foram brotando, em voz baixa, a série de suas terríveis faltas. Algumas era humanas, demasiado humanas. Mas outras eram de fato estarrecedoras, ainda mais pelo aspecto da jovem senhora de semblante sempre tão calmo e doce que ali estava. Como poderia ela ter um passado assim tão cruel e perverso?

Foram longas horas e ela começou do início. Seu primeiro pecado grave. Um assassinato.

Ela tirara a vida de um homem, era uma criança de dez anos com uma faca na mão, diante de um estuprador que violentaria uma freira. Então, ela o matara sem hesitação, cravando a faca em sua nuca. Nem por um segundo lamentara aquilo. Ainda que defendesse a vida de uma inocente, quem era ela para matar? E o pior, ela gostara daquilo.

–  Eu matei um homem, padre, quando tinha dez anos. Ele ia violar uma freira. E eu o matei.  Mesmo nessas circunstâncias, poderia eu matar? Mesmo que tenha sido necessário, eu lamento pela vida que tomei, mas essa foi só a primeira.

Depois de uma breve pausa, ela prosseguiu.

– Muito tempo depois, quando conheci o lado português da minha família, os Nunes, eu me uni a minha prima Nicoloe, tornamo-nos aliadas. Meu único objetivo era sobreviver. Sabia que ela era cruel, e fui me tornando um pouco como ela. Para sobreviver eu matei e torturei pessoas. Fiz isso a meu primo João Nunes, que tentou me violar. Quando Nicole me salvou das mãos dele, eu queria vingança. Aceitei que fosse torturado com a desculpa de descobrir quem o enviara para me matar. Mas eu realmente tive prazer naquilo. Não vou lhe contar os detalhes, mas não sobrou muito que a minha avó pudesse reconhecer quando terminamos. Com essa prima eu participei de orgias e me embriaguei. Mas digo isso não para demonizá-la. A culpa é toda minha, minha ingenuidade não era desculpa, nunca foi.

Em seguida ela continuou com sua voz doce inalterada.

– E a minha família… o lado Nunes… Por confiar em minha prima, eu os condenei à morte. Nicole, com a desculpa de que desejava me proteger, entregou a cabeça dos mais velhos do clã ao seu tio demoníaco, e  assim ela se tornou a matriarca dos Nunes, e quando Nicole partiu, ela transferiu esse titulo para mim. Sei que os Nunes desejavam me matar, mas eu me protegi dessa forma, o que me torna semelhante a eles. Não que Nicole tenha me dado escolha, mas por eu confiar nela, eles tiveram esse destino.

Minha avó Juliana, a antiga matriarca, foi aprisionada pelos Carterwill e teve um destino terrível. Depois de meses sendo torturada física e psicologicamente, Nicole a entregou para mim. E eu a recebi, pois queria livrá-la do sofrimento. Mas não havia mais salvação em vida para ela. Estava tão perturbada, que uma noite tentou me matar, derrubando-me de uma escada. Então, o que eu fiz? Pedi a alguém que cuidasse dela, que lhe desse a paz definitiva. E assim, ela morreu, após receber os sacramentos, dormindo tranquila. Mas mesmo que minhas intenções fossem boas, esse foi um ato cruel. Eu sabia o que ia acontecer.

Talvez o padre ficasse surpreso em saber afinal, que tipo de pessoa ele tinha ali diante de si. Mas seu relato também demonstrava arrependimento, desde o seu primeiro assassinato, ainda quando criança, passando por situações em que quase sempre estivera, não por sua total escolha, mas pelas quais ela assumia sem rodeios a sua parcela de culpa. Ela trazia a baila crimes tão antigos pelo simples motivo de que realmente agora se arrependia verdadeiramente deles. Não vale a pena confessar o que não se sente arrependimento. Sem arrependimento não há perdão nem remissão de pecados.

– Há pecados menores mas não menos torpes. Por muito tempo tive que ocultar a posse de um tesouro. Algo que foi encontrado e dado a mim em condições obscuras. Isso me tornou avarenta, demorei para aceitar a herança dos Nunes por puro orgulho e por saber que estava manchada de sangue. Mesmo assim, eu a tomei e sou mais rica do que costumo aparentar, isso somado aos títulos que atualmente possuo. Não tenho o orgulho da ostentação, mas tenho o orgulho da recusa.

Ela baixou os olhos e falou.

– De todas essas coisas, quero que saiba que me arrependo de coração. Mesmo as coisas más que fizeram contra mim, não tenho mais desejo de vingança. Nem desejo mais praticar nenhuma crueldade. Na verdade faz muitos anos que me afastei de tudo isso, afastei-me desde que casei, mas nunca havia antes pedido perdão e reconhecido meus erros dessa forma.

Assim, que terminou seu longo relato, ela quedou-se e aguardou as palavras do sacerdote.

Enquanto a Baronesa falava, o Sacerdote Confessor a ouvia atentamente, pois naquele momento ele seria o juiz, precisava entender o que a levou ao pecado e a veracidade de seu arrependimento. Eram atos que de certa forma eram compreensíveis, seja o sacrifício para sua própria defesa ou seja as falhas que o humano sempre cometia.

– Fico feliz que tenha decidido se confessar, não é fácil viver aqui no mundo, há guerras, tempos difíceis e temos que enfrentar tudo isto para um dia podermos ir ao Sol. Acredito que se arrependes de ter feito tudo isso, e esse é o caminho certo – O Padre fica em silêncio por um momento em busca de uma resposta – Filha, fizeste o necessário para salvar tua família da morte, agora terás de salvar uma outra família, também da morte, mas morte por fome. Terás de fazer um ato de caridade e ajudar alguma família necessitada, não há nenhuma em especifico, mas não será difícil encontrar uma. Por agora reze duas vezes o credo para que fique bem, mas teu perdão estará completo após a caridade e que se esforce para que nunca mais caia nos mesmos pecados.

Do outro lado da grade Beatrix ouviu a voz do padre, na verdade ela estava um pouco surpresa, pois ele tivera um olhar de misericórdia que ela mesma não possuía consigo mesma.

Em seguida ela ouviu a penitência. E um leve sorriso brotou dos seus lábios. Aquilo seria algo realmente agradável de se fazer. Ela poderia inclusive atender não apenas mas várias famílias assim em seu feudo. Mas uma haveria de ser ali mesmo e haveria de ser especial.

– Amén! Padre, assim, eu farei. 

Ela então, beijou mais uma vez a ponta da estola. Levantou-se e foi a beira do altar para realizar a sua penitência de orações.  Após rezar dois credos, ela foi realizar a outra parte da penitência, conforme havia se comprometido.